quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sobre os novos ricos do campo e sua direitização



Cenas do filme que conta a história de Zezé de Carmargo

Nos últimos meses muitas coisas bizarras têm acontecido. Além de tudo que advém do golpe, temos visto algumas manifestações de figuras públicas que nos fazem pensar.  Há nisso tudo uma espécie de padrão: pessoas famosas, que agora são ricas, mas que foram pobres e de origem rural. E que, paradoxalmente, professam uma ideologia que vai contra tudo o que alguém, que tenha vivido a dura realidade de ser trabalhador rural, poderia defender. Meu amigo Danilo Carneiro, que esteve na guerrilha do Araguaia e que segue estudando a realidade brasileira, diria: “Isso é natural, nega”.  E por quê? Porque as pessoas não conhecem a realidade, não estudam, se informam de maneira superficial sobre as coisas, e o capitalismo, através do seu braço armado – os meios de comunicações – bombardeia ideologia. Então, se ficam ricas, e sem mudar o padrão de conhecimento, tudo o que querem é esquecer o passado de privações, e tentar se pintar com as cores da classe para qual saltaram.

Falo isso por conta da triste postura dos cantores populares sertanejos, alguns dos quais gosto muito, como Chitãozinho e Chororó, Zezé de Camargo e outros tantos que a gente vê aí nas propagadas dos políticos de direita, defendendo a classe dominante e a consequente exploração dos trabalhadores. Muitos deles têm uma história triste, de pobreza e de grandes sacrifícios para conquistarem um “lugar ao sol”. Lugar esse que no geral significa dinheiro e fama. Raros são os que, ao enriquecerem, não renegam a classe de onde vieram. No geral, tornam-se fazendeiros, na ligação com o passado de trabalhador rural, mas possivelmente reproduzem nas suas propriedades as mesmas relações de dominação e exploração que viveram.

Marx, quando fala das classes, burguesia e proletariado, deixa claro que tem uma parcela das gentes que não se enquadra nessa divisão: são os camponeses, sejam eles ricos, remediados ou pequenos. Eles, ao contrário do trabalhador da fábrica, ainda têm o controle dos meios de produção. Tem a terra e podem dela viver.  São um estamento de difícil manejo e, no geral, pendem para a direita. Lukács, durante a revolução húngara, foi um dos que se ocupou com esse tema. Ele acreditava que era necessário um trabalho diferenciado com os camponeses, para trazê-los para o lado da revolução.  Não foi entendido. Insista que era muito difícil incutir nos camponeses – os que tinham propriedade – a consciência de classe trabalhadora. "Os pequenos proprietários agrícolas, como dizia Marx, formam uma enorme massa cujos membros vivem na mesma situação, mas sem entrar em múltiplos contatos uns com os outros. O seu modo de produção os isola uns dos outros, ao invés de criar entre eles um comércio recíproco... É assim que cada família de camponês... retira seus meios de existência mais da troca com a natureza do que com o comércio com a sociedade... Na medida em que milhões de famílias vivem nas condições econômicas de existência que separam seu modo de vida, seus interesses, sua cultura, dos das outras classes e os opõem como inimigos dessas classes, é que elas formam uma classe. E deixam de formá-la à proporção que só existe entre os pequenos proprietários agrícolas um vínculo local no qual a identidade de seus interesses não engendra nenhuma comunidade, nenhuma ligação de plano nacional e nenhuma organização política".

São questões instigantes as que nos propõe Marx e Lukács, e que nos permitem entender porque os ex-camponeses, agora fazendeiros novos ricos, como esses cantores sertanejos, vão se perfilando no bloco da classe dominante. Eles saem da condição de pequenos, dos que vivem de seus próprios meios, e adentram ao universo do “patrão”, tornam-se um deles. Passam a empregar pessoas, compram fazendas que não produzem, que são apenas uma espécie de pastiche – agora melhorado – da vida que tinham antes de enriquecer. Criam cavalos, ou gado, ou arrendam, e usam as mansões – a casa-grande – para o seu bem viver. Não vivem mais do campo, vivem da venda dos discos, dos shows, são escravos da indústria cultural. Estão colocados numa espécie de limbo, ou falso limbo. Porque, afinal, não são verdadeiramente camponeses, nem produtores. São unicamente proprietários de terra, terra que não é útil, mas que serve apenas como valor de troca, como especulação.  Nesse sentido, podem se sentir confortáveis na gaveta de “burguesia” ou “classe dominante”. Fazem parte do bloco restrito daqueles que detém propriedade.  Por isso defendem aqueles que julgam serem os seus iguais. Esquecem para sempre dos antigos parceiros de classe. “Venceram” na vida.

O mais doloroso é que muitos deles, falo dos cantores ou das duplas sertanejas, reproduzem, muitas vezes, na sua arte, as letras caipiras de raiz que justamente falam da dura vida do trabalhador do campo, seus dramas de amor, suas lutas, a necessidade da migração para a cidade, e suas saudades. Canções como “O menino da porteira”, “Cabocla Tereza”, “No rancho fundo”, “A colheita”, “O homem do campo”, “Uma casa de caboclo”, “No dia em que saí de casa”, “Tristeza do Jeca” e tantas outras que tocam o coração da gente justamente por observarem criticamente os dramas do mundo rural.

Assim, envolvidos pelo capital, eles usam as dores e as injustiças do mundo rural para transformá-las em valor de troca, enquanto a gente, que ama o campo e vive em nostalgia, apreende a música como um valor de uso, algo que aparece como vital para nossa existência, enquanto eles enriquecem e se apartam da sua condição de classe. É uma contradição.

Sim, há muitas duplas e cantores rurais que não estão no furacão da indústria cultural, que seguem cantando o campo sem perder o vínculo com sua classe. Mas, de qualquer forma, para a maioria das pessoas, é bastante difícil encontrar essas informações, visto que são bombardeadas pela indústria, que é quem, em última instância decide quem e o que toca no rádio e na televisão.

Então, resta à maioria “suportar” os novos ricos rurais, com suas calças apertadas e músculos cultivados, que entre uma música caipira de verdade, alternam outras composições de amor ou de sacanagem, ficando a música de raiz meio perdida. Mas, apenas meio perdida, porque ela é necessária para acender a memória. Por isso não foge dos repertórios. Os produtores, que vendem produtos musicais, sabem bem disso. Uso instrumental de um sentimento de amor.

Ao fim, tudo isso é pra dizer que a consciência de classe é coisa difícil de lograr, principalmente se o dinheiro entra nas vidas. E também uma tentativa de não demonizar as pessoas que não conseguem transcender, compreendendo-as no seu contexto. Não é fácil escapar dos tentáculos do capital. O fato concreto é que seguirei ouvindo algumas das canções do Zezé, do Leonardo, do Eduardo e outros, assim como leio os poemas de Borges. 


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Cursos Livres do IELA: A atualidade de Adelmo Genro Filho no jornalismo



Curso será ministrado pela jornalista Elaine Tavares, nos dias 21 e 28 de setembro, no horário das 9h e30 às 11h e 30min, miniauditório de Economia e Relações Internacionais, CSE/UFSC.

Adelmo escreveu sua teoria marxista do jornalismo em 1987. Seu foco foi o jornalismo informativo, a notícia. Ele mostrou que esse tipo de jornalismo não precisa ser superficial nem manipulador, como era e ainda é. Naqueles dias, a internet estava só engatinhando, as novas tecnologias nem se anunciavam. Entretanto, hoje, nada pode ser mais atual do que a proposta de Adelmo para a construção da notícia, visto que esta se mantém hegemônica no jornalismo. 

Os textos curtos, informativos, são incensados como os únicos que são bem recebidos pelo público. E no oceano da superficialidade desse jornalismo tipo manual de geladeira, Adelmo assoma como uma boia, não para salvar, mas para mostrar aos jornalistas que é possível construir uma notícia que possa escapar de sua imediaticidade, alcançando a totalidade do fato e produzindo conhecimento.

O curso oferecido pela jornalista Elaine Tavares não se propõe a uma exegese do autor. A intenção é mostrar como, nos limites dos anos 80, Adelmo enxergou uma vereda capaz de constituir um jornalismo de qualidade, mesmo no campo do “informativo” e mostrar como se pode construir notícias que fujam da “forma-mercadoria” tão comum nos tempos atuais. O segredo revelado em 1987 hoje é ainda mais sagaz e extremamente útil. Com ele, mesmo o jornalismo informativo pode ser conhecimento da realidade, com contexto, com profundidade e com bossa. 

O curso acontece em duas quintas-feiras no mês de setembro, 21 e 28, das 9h e 30min às 11h e 30 min, no mini-auditório da Economia. Vagas limitadas. Podem participar alunos de cursos de jornalismo, jornalistas e interessados no tema. A condição para a participação é a leitura prévia do livro: O segredo da Pirâmide – para uma teoria marxista do jornalismo, disponível no enlace: http://www.adelmo.com.br/bibt/t196.htm 

Inscrição no email do IELA: iela@contato.ufsc.br

O QUE? Curso Livre do IELA sobre a atualidade de Adelmo Genro Filho no Jornalismo, com a Jornalista do IELA, Elaine Tavares.

ONDE? Miniauditório de Economia e Relações Internacionais - UFSC

QUANDO? Dias 21 e 28 de Setembro, das 09:30 às 11:30


domingo, 3 de setembro de 2017

Das melancolias...



Há mais de dez anos que estudo, de maneira sistemática, os modos de produção das sociedades antigas, originárias, aqui do nosso continente, Abya Yala. E, todo encantamento que se me acomete com a originalidade e a beleza do modo de vida de tantos povos  é tripudiado por companheiros que, de maneira trocista, me acusam de querer voltar a idade da pedra.

Quando me aparecem com esse argumento tão frágil, insisto: não se trata de voltar ao passado, mas de tomar, do passado, as lições que possam fazer do presente e do futuro uma lugar melhor para todos.

É óbvio que esses 300 anos de capitalismo produziram coisas interessantes. O povo trabalhador, ainda que com sua força de trabalho capturada, deu vazão à sua criatividade e fez com que muitas coisas melhorassem a vida deveras. Mas outras não. Outras apenas “aparecem” como boas. Na sua essência, escravizam e alienam as pessoas, mantendo-as presas a roda insaciável do capital.

Dou apenas um exemplo bem prosaico. O celular. Quem pode dizer que o celular não é uma coisa boa? Ele tira foto, vira agenda, filma, manda mensagem, é reservatório de livros, é quase tudo na vida da pessoa e, ainda serve para falar com outro ser humano à distância. Uau! Perfeito. Mas, no sistema capitalista de produção, um objeto assim, tão completo, não pode ser algo que a pessoa compra e o tem para a vida inteira. Se fosse assim, acabava o ciclo e a roda econômica não girava. Então, a indústria criou, para o celular e para praticamente todas as mercadorias produzidas o que se conhece como “obsolescência programada”. 

E o que significa isso? Que a mercadoria tem tempo de vida definido. Ela não tem a durabilidade que muitas coisas tinham no passado. Por exemplo: tu fazias uma mesa e ela durava a tua vida, a vida do teu filho e dos teus netos. Não. Hoje não. Cada mercadoria tem um tempo fixo. Chega a sua hora e ela se desmancha, pifa, estraga. Precisa ser jogada fora, pois eles são construídos de tal maneira que não permitem o conserto.

No caso dos eletrônicos, como o celular, o computador, a máquina fotográfica etc..., a coisa é ainda mais grave, pois o material de que são feito não se degrada facilmente.  Assim, vai sendo criada uma montanha de lixo que o planeta não tem condições de assimilar. Só na Europa, onde esse problema começa a ser discutido, nos próximos três anos serão acumulados 12 milhões de toneladas de resíduos tecnológicos. Imaginem considerando o consumo de todo o planeta.

Hoje, diante do mundo, sinto-me conservadora. Gosto das coisas que ficam, que demoram a se acabar. Amo velhos móveis de madeira, roupas antigas que sobrevivem aos anos, artefatos que podem ser consertados milhares de vezes e que se renovam a cada mexida.  Amo canecas de louça que perdem um ou outro pedacinho, copos de lata e sapatos feitos à mão pelos artesãos de rua. Sim, gosto de algumas comodidades da vida moderna, mas queria que pudesse ser diferente. Sem tanta obsolescência. Fazem-me falta as coisas que perduram... Amores, amizades, olhares, coisas... Que mesmo na permanente mutabilidade da vida, ficam e ficam e ficam...



quarta-feira, 30 de agosto de 2017

As moedinhas do pai


O pai gosta de carregar moedinhas no bolso. Precisa saber que tem um dinheirinho ali, para se acaso precisar. Mas, quando vai dormir, acaba derrubando as moedas no chão e no dia seguinte as encontra outra vez, tornando a colocar para dentro do bolso.

Creio que é por causa disso que encasquetou que brotam moedas de baixo da cama. Todos os dias, ao cair da tarde ele pega a vassoura e arreda a cama para procurar moedas.

- Pai, não tem moeda aí, aquelas caíram do teu bolso.

- Não é não. Elas aparecem aqui embaixo, todos os dias.

E toca a passar a vassoura vezes sem conta.

Por conta disso, agora, passei a plantar moedas embaixo da cama.

É indescritível a alegria dele quando as encontra.

-Tá vendo, elas nascem aqui.

E bota as bichinhas dentro do bolso, feliz da vida. Para ele, a casa da moeda já é privada! 


terça-feira, 29 de agosto de 2017

Os desafios dos trabalhadores na conjuntura brasileira



Passado pouco mais de um ano do golpe parlamentar/judiciário/midiático que tirou Dilma do governo, o Brasil segue um vertiginoso processo de entrega de riquezas e destruição de direitos. Uma guerra de classes, como diz o economista Nildo Ouriques, das mais violentas, na qual a proposta fundamental é aprofundar a exploração dos trabalhadores para gerar mais lucro para o capital. Na verdade, nada de novo, a não ser a o desmascaramento. Ou seja, o sistema não usa mais as máscaras. Faz tudo às claras, sem medo da classe trabalhadora. Com o golpe, a face “humana” do capital se esboroa. 

Durante os governos de Lula e Dilma, a aposta foi na socialdemocracia. Uma tentativa de gerenciar a pobreza, mas sem conflito com o capital. As políticas públicas na área da educação, saúde, moradia e alimentação, ainda que utilizando pequenas fatias do orçamento, significaram muito para um contingente imenso de pessoas. Quarenta milhões saíram do terror da fome. Milhões de jovens sem acesso à universidade garantiram seu curso superior, milhares conseguiram casa própria e acesso à saúde. Esse legado é indiscutível. 

Pode-se criticar argumentando que as vagas nas universidades privadas enriqueceram os empresários da educação, que as moradias não são lá muito boas, e que garantir comida não é suficiente. Mas, para quem vivia no limbo, a melhora foi incrível. E são essas pessoas as que recebem Lula de braços abertos na caravana que corre o Brasil. Elas sabem que mudou, estão sentindo na pele.

De qualquer forma, o discurso de candidato que Lula tem assumido nos lugares por onde passa não consegue sair do mesmo modelo que regulou os seus governos. “O Brasil vai melhorar”, “vamos garantir vida boa para todos”, “vamos regular a comunicação”. Nada de novo. A mesma velha práxis do “deixa que eu resolvo”. Isso sem contar as arrumações com velhos adversários, reproduzindo a mesma conciliação de classe que deu no que deu. Já sabemos como acaba. 

Por outro lado, a classe trabalhadora brasileira está desarmada, para usar a feliz expressão de Plínio de Arruda Sampaio Jr. Durante 15 anos tivemos um movimento sindical domesticado, movimentos sociais apaziguados, todos contando com a “boa vontade” governamental. Claro que houve exceções, mas apenas exceções. A regra foi o aplastamento das massas e a desorganização. Por isso, agora, diante dos ataques violentos do capital sobre os trabalhadores, o que se vê a inação. “Os trabalhadores não estão apáticos. Eles querem lugar, resistir, mas estão desarmados”, diz Plínio Jr. 

O desarme é fruto dessa domesticação. Há uma geração inteira de trabalhadores que não viveu o período da ditadura, que não conheceu a batalha contra o neoliberalismo representado por Collor, Itamar e Fernando Henrique. E, por conta de não saber, não consegue encontrar o caminho para a resistência. Enquanto isso, os pequenos gerentes do capital, instalados no governo golpista e no Congresso Nacional vão passando o rodo, numa destruição aparentemente incontrolável. Destruição de direitos e entrega do patrimônio público. Privatização de empresas estratégicas e acumulação de riqueza sobre o corpo massacrado do trabalhador. 

No meio de todo esse violento processo de destruição da vida nacional, chegam as notícias que, num país sério, teriam o poder de desfazer o golpe: Ministério Público investiga e chega a conclusão de que Dilma não cometeu crime de pedalada fiscal (motivo principal para a destituição). Tribunal de Contas da União investiga e chega a conclusão de que o Conselho de Administração da Petrobras, presidido por Dilma Rousseff, não cometeu qualquer “ato de gestão irregular” no episódio da compra da refinaria de Pasadena. Ou seja: as denúncias – fruto de delação premiada  - que geraram o golpe, não tem qualquer sentido. Num país sério, no qual a Justiça se pautasse pela investigação segura, e não por delações suspeitas, o impedimento de Dilma deveria ser anulado. 

Mas, nada acontece. As informações saem em notas pequenas nos jornalões, e a vida segue. O governo ilegítimo vai tirando direitos, privatizando empresas, bancos e até a Casa da Moeda, entregando as riquezas minerais, vegetais e humanas. Tudo como foi planejado naquele fatídico áudio do Jucá. “A gente tira a Dilma, bota o Michel e fecha acordo com o Supremo, com tudo...” Tudo incrivelmente às claras.

Nas ruas, a reação teve seus momentos, mas agora estancou. E ainda que as pessoas estejam indignadas e querendo acabar com todo esse terror, essa indignação não se expressa em luta. E não é para menos. Foram anos e anos esperando que as coisas boas viessem do governo, acreditando que a conciliação de classe faria a elite abrir mão de alguma coisa para benefício das massas. Isso é impossível. Como na fábula do leão, as feras podem mudar em vários aspectos, menos nos hábitos alimentares. Assim, a classe dominante. Na primeira oportunidade de retomar o controle total do país, veio com tudo, sem pruridos.

O desafio da classe trabalhadora é dar origem a novas formas de luta. Os tempos mudaram. Há que constituir também as novas armas. Isso não é coisa fácil, mas o tempo urge. Há que começar.

Nesse processo faz-se necessário também compreender que é tempo perdido remendar roupa velha. O esgarçamento é incontrolável. Pois o modo de produção capitalista, esse sistema insaciável, já mostrou claramente qual é a sua proposta: exaurir o trabalhador, tirar dele toda a vida, até a última gota, na maior intensidade possível. E ainda que tente seduzir com mentiras do tipo: liberdade de ser quem se quer, possibilidade de comprar coisas com prestações a perder de vista, participar do banquete, ainda que comendo migalhas, é certo que isso não vai rolar. No capitalismo, o único lugar reservado ao trabalhador é o de explorado e ponto final.

Mas, o capitalismo não é o modo de produção. Ele é um dos modos. Outros existiram e outros podem existir. Quem decide isso é a maioria, e a maioria são os trabalhadores. Logo, são os trabalhadores que têm o poder de mudar as coisas. O próprio capitalismo já gerou seu antagonista: o comunismo. Se no primeiro a propriedade é privada, no segundo, ela é comum. Se no primeiro o trabalhador é explorado, no segundo ele é parte de um todo em equilíbrio para o bem comum. Se no primeiro a primazia é pelo valor de troca, no segundo é pelo valor de uso. Se no primeiro a mercadoria domina o humano, no segundo o humano é livre. E por aí vai. Então, qual o medo? Porque temer a vida boa e bonita?

É tempo... É tempo.  


domingo, 27 de agosto de 2017

Morreu o Birigui


            


Conto escrito nos anos 90, baseado numa notícia de jornal...




A notícia chegou sem muita surpresa no morro do Tico-Tico. Tinham matado o Birigui. No armazém do seu Antão, a rapaziada tomava sua caninha e discutia o assunto de forma acalorada. Gervásio ria alto, com sua boca sem dentes, dizendo a toda hora: “bem feito, bem feito!”. Maria Antônia, quieta no seu canto, perto da caixa registradora, lembrava o dia em que Birigui lhe cercara na boca do morro. Ele a tinha encostado ao muro, enquanto falava baixinho que ela era uma “nega” gostosa. Foi enfiando as mãos pelas pernas acima, apertando, apalpando e o cheiro de pinga que saía de sua boca ia penetrando nela com mais força que o dedo do invasor. Não tinha como gritar e, mesmo que gritasse, quem iria ajudar? Então, o jeito foi deixar-se ficar, muda, enquanto ele brincava nela até cansar. Depois do serviço, Birigui foi embora, assobiando um pagode do Aragão, sem nem sequer olhar para trás. Por isso, ela também repetia, no silêncio de si, “bem feito, bem feito”.

            Cada um naquele bar tinha uma façanha do Birigui para contar. Era nêgo ruim, vagabundo. Nunca ajudou a mãe, que vivia abraçada nos santos, pedindo proteção para o “pobre filho”, como ela o chamava. E o “pobre” estava sempre encrencado com a polícia. Tinha assaltado um mercadinho lá para os lados de Coqueiro, e acertou, sem dó, a cabeça do dono, só porque ele demorou-se em abrir a caixa onde estava o dinheiro. Traficava drogas e estava sempre aprontando. Isso sem contar o número de mulheres que ele havia estuprado ali mesmo, no morro.

            Ninguém, em sã consciência, gostava do negro agigantado, com aquela marca de queimadura no lado direito da cara. A mãe dele contava que o acidente, responsável pela cicatriz, tinha acontecido nos tempos de criança. Ele havia queimado a cara no dia em que botara fogo num gato, que tinha amarrado vivo, numa espécie de pau-de-arara. Era nêgo ruim o Birigui. 

            Quando trouxeram o corpo para o morro, a correria foi geral. Todos queriam ver a cara daquele a quem nunca tinham ousado desafiar. Antes, ele era o dono do morro, agora estava ali, servindo de piada para todo mundo. Até os garotos menores, vinham e tocavam, sem medo, na queimadura da cara, puxando para ver se era real. Depois, riam, riam muito e berravam, “olha a cara do negão, olha a cara do negão”, numa espécie de cantiga de roda.

            O seu Antão, satisfeito, ofereceu o espaço do bar para fazer o velório, afinal, no barraco da velha não iria caber toda a gente que queria olhar para o Birigui inerte, morto, sem perigo. Assim, a notícia do velório no bar logo se espalhou. Foi colocada uma cartolina branca, com enormes letras vermelhas, bem na porta do armazém. “HOJE PROMOÇÃO: CERVEJA GELADA SÓ UM REAL”.

            Quem subia o morro, na volta do trabalho, via a placa e ia ficando. Era o velório do Birigui. Farra total. Na pequena sala, de chão de madeira, colocaram o caixão aberto. As cadeiras ficaram encostadas no lado direito da sala, para os parentes. Mas de parente mesmo, apareceu só a mãe. Ela chegou cedo, na mesma hora em que chegou o caixão. E ficou ali, sentada, quase sem se mover. Só os lábios mexiam num sussurrar sem sentido, talvez numa língua desconhecida, destas dos orixás que enchiam que enchiam seu congá. Não tinha lágrimas a velha. Todas já haviam secado, ao longo dos oitenta anos de vida.

            E enquanto ela adormecia o filho bandido com suas rezas, em volta o clima era de festa. Seu Antão ia e vinha na velha geladeira, buscando a cerveja gelada. Os filhos da nega Carlota enrolavam um cigarro de maconha e já tinha gente por perto querendo ajudar a “puxar”. As meninas foram chegando com roupas de domingo, os cabelos amaciados com manteiga de karité. Juvenal trouxe o violão e logo Maneco mandou buscar o pandeiro e o cavaco. A galera se assanhou e, em dois toques, o pagode correu solto. Algumas mulheres, vizinhas do barraco do Birigui, trouxeram linguiça para fritar, e logo um cheiro gostoso invadiu o velório.

            No pique do samba, decidiram afastar o defunto para o lado, quase colado à parede. A velha mãe seguiu junto, com suas lamúrias, parecendo não notar a festa que rolava ao seu lado. Quando o samba parava para a rapaziada descansar, a mãe Mariana vinha com seus causos de assombração. Nesta hora, todos davam uma espiadinha no morto. Manezinho, chapado, levantou com fúria e, sem mais delongas, acertou a cara de Birigui.

            - Reage agora, vagabundo – berrava com a voz pastosa, os olhos vermelhos feitos brasas. A galera ria e aplaudia.

            Quando o dia clareou, encontrou a velha ainda ao lado do caixão, ela também um pouco morta. As portas do bar estavam fechadas e, do lado esquerdo, perto do balcão, saíam gemidos. Era Eneida, que se enroscava no corpo do Dagoberto, numa dança de pernas e bocas. Estava acabado o velório. Dali a pouco seria hora de enterrar o morto. E quando o casalzinho afogueado saiu do bar, o velho Biga gritou, do barraco da frente.

            - Festa boa, heim?

            E Daboberto, ajeitando as calças, retrucou:
            - Boa demais para um safado feito o Birigui.  
                   
            A nêga sorriu e foi se afastando, subindo o morro com o passo cadenciado de velha passista.  

            Ninguém acompanhou o enterro de Birigui, só a mãe. Afinal, aquela gente ali tinha muito mais o que fazer na vida.


sábado, 19 de agosto de 2017

Casa da América Latina






Fotos: Rubens Lopes

Minha casa, nossa casa: Abya Yala

Florianópolis inaugurou nesse dia 18 de agosto a Casa da América Latina, uma proposta que floresceu a partir da professora da UDESC, Carmem Suzana, e que foi abrindo raízes junto a outras companheiras e companheiros, também latino-americanistas. Essa vontade viva de ter um espaço onde os irmãos e irmãs de Abya Yala pudessem se encontrar e onde pudesse pulsar essa alma mestiça de negro/índio/espanhol/português que nos faz povo.

Pois nessa noite foi assim. Amigos, música da pátria grande, Artigas, lembranças, emoções, alegrias. Tudo junto e misturado nessa paixão que move a vida desde que Bolívar entendeu que sozinhos somos fracos, juntos somos gigantes e saiu por aí a semear. Simón não viu acontecer, Artigas também não. Mas nós a faremos, pátria/mátria nossa.

A inauguração teve sons da américa, batida de tambor, chorinho, poesia, imagens. Teve comida compartilhada, teve criança, velho, moço. Teve argentino, uruguaio, chileno, cubano, brasileiro, caboclo, branco, negro, índio, tudo o que somos. Teve abraço, teve riso, teve até lágrimas. Essas que brotam da pura emoção da vida compartilhada. E teve a presença segura da sempre amada Gina Couto.

Nessas imagens de Rubens Lopes, um pouco da alegria que nos invadiu. A alegria que vem da certeza de somos companheiros e estamos juntos, mesmo que a vida esteja gris, que haja golpe. Porque somos Abya Yala, somos povo latino-americano, somos um só vibrando nesse imenso continente. Caminhamos... Estamos juntos...

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Governo Temer agora ataca os trabalhadores públicos



Depois da destruição dos direitos dos trabalhadores privados, o governo já está anunciando medidas de ajuste para os servidores públicos. Pelo visto não sobrará pedra sobre pedra. E nesse tabuleiro, o aspecto da classe é o que mais se destaca. Para os ricos, chovem benesses. Para os trabalhadores, arrojo. Havia tempo que o sistema capitalista não mostrava sua cara feia tão destemidamente. A maquiagem da concessão de um direito aqui, outro ali não está mais sendo usada. Tudo é feito às claras e só não vê quem não quer. Como num explícito campo de batalha, os grupos em guerra estão bem definidos, e quem avança, sem piedade, é o “exército da noite”, o capital. Já é tempo de os trabalhadores encontrarem um caminho de ataque.

O governo de Michel Temer, que foi escolhido para realizar os ajustes necessários ao capital, vem cumprindo à risca todo o receituário. Para garantir apoio da elite dominante abre os cofres: perdão de dívida dos banqueiros em bilhões de reais, perdão da dívida dos latifundiários, em bilhões de reais, e o enchimento sistemático dos alforjes de deputados e senadores, para que mantenham o congresso alinhado e votando todos os projetos necessários. Dinheiro às pencas. E tudo isso num quadro de “profunda recessão”, como alega o governo. 

O mantra repetido pelos meios de comunicação é de que o Brasil foi quebrado pelos governos de Lula e Dilma e que agora é preciso que os brasileiros apertem o cinto para reconstruir o que o PT destruiu. Mas, se o país foi deixado quebrado, de onde está saindo todo esse dinheiro para comprar parlamentares? E por que o governo está perdoando dívidas bilionárias? Obviamente que os caraminguás que vai tirar dos trabalhadores não se comparam ao valor de benesses oferecido aos ricos. Mas, a resposta é simples. No sistema capitalista de produção, as relações sociais que garantem o domínio de 1% sobre 99% são as que permitem que esse pequeno grupo explore ao máximo a maioria, e que essa maioria sustente seu luxo e seu bem-viver. 

A contrarreforma trabalhista colocou por terra uma série de direitos que tiram vida do trabalhador. Ele precisará trabalhar com mais intensidade, por mais tempo, e terá seus ganhos reduzidos para uma linha ainda mais baixa do que a do necessário para se manter em estado de sobrevivência . Isso significa que ele viverá mais estressado, ficará doente com mais frequência e com muito menos possibilidade de viver feliz.

O governo passou pelas votações olimpicamente. Comprou o apoio dos parlamentares e ignorou a voz das ruas. Agora, quer colocar seu dedo podre na categoria dos servidores públicos, que são aqueles que sustentam todo o edifício dos serviços garantidos à maioria da população que é empobrecida.

Pois o governo Temer anunciou que não vai cumprir com os acordos salarias feitos pelo governo anterior, boa parte deles só garantidos por lutas. Ou seja, vai descumprir a lei, já que os acordos são projetos de lei aprovados. Não vai cumprir, e pronto!  Quem o obrigará? Não há justiça para os trabalhadores, já sabemos.  Com isso, ele também coloca na mesa o fato de que não haverá reajuste salarial para ninguém. Nem os acordados no passado, nem os que venham a ser necessários no presente. 

Anunciou também que vai limitar os salários dos novos trabalhadores a cinco mil reais. Para cumprir ele precisaria criar uma lei, aprovada no congresso, alterando as tabelas de mais de 150 carreiras de trabalhadores públicos. Pois bem, ele deve fazer isso, o Congresso obedece.  Mas isso só vai valer para novos concursados. Portanto é um anúncio bombástico, para enganar os trouxas, fazendo as pessoas acreditarem que ele está botando ordem na “bagunça” que é o serviço público. Vejam que o que se trata é de inventar um consenso sobre as coisas. 

Temer ainda informou que serão extintos 60 mil cargos do Executivo Federal e que não vai haver reposição deles. Ora, isso significa que se um professor se aposentar, outro não será contratado, ou um policial, ou um médico, um trabalhador administrativo, um analista. O que ele planeja? Acabar com o serviço público? Terceirizar ainda mais e tornar mais precário o que existe? Parece que esse é o plano. 

Outra proposta para os servidores é o PDV, Plano de Demissão Voluntária. Mais uma bobagem. Quem vai desistir do serviço público num período que o próprio governo afirma estar em recessão? Quem será tolo o suficiente para deixar o trabalho seguro pela incerteza do mercado? Pode até haver quem seja, mas o impacto será pequeno. Há ainda a proposta de aumentar a contribuição para a previdência de 11 para 14%. 

Tudo isso, diz o presidente de fato, Henrique Meireles, vai gerar uma economia para o Estado de 70 bilhões em 10 anos. Oi? 70 bilhões em 10 anos? Só o perdão ao Itaú foi de 23 bilhões. A dívida dos latifundiários é de quase um trilhão. A não cobrança de impostos no novo REFIS (refinanciamento de dívidas) discutido hoje no Congresso poderá fazer com que mais de 500 bilhões deixem de entrar nos cofres públicos. E a Receita Feral já divulgou que existem pelo menos 30 programas de parcelamento de impostos. Para os ricos e só para os ricos. 

Ou seja, as medidas anunciadas com estardalhaço contra os servidores públicos não têm nada a ver com economizar, visto que não impactarão em praticamente nada. Se a economia será de 70 bilhões em dez anos, significa que a economia anual será de menos de um milhão. Ora, isso é troco. Isso é resultado de uma política muito clara: o Estado dirigido por Temer e sua trupe nega/ tira recursos dos trabalhadores os, e os repassa aos ricos, para que acumulem mais e mais. Nada de novo, só o escancaramento do Estado como instrumento da classe dominante. 

Assim, o que está na pauta nessa cruzada contra os trabalhadores públicos é obvio: a destruição de tudo aquilo que é público, do que serve à maioria. E, de quebra, o governo ainda devasta a capacidade de luta de uma categoria que sempre foi guerreira. Há que destruir, via meios de comunicação, a imagem do trabalhador público. Fortalecer a ideia de que são vagabundos, relapsos, incompetentes e que emperram o progresso nacional. Apenas mais um pacote de mentiras. Quem, senão o trabalhador público é o que carrega o serviço público nas costas, sempre sem as condições necessárias?  Basta ver como vive o professor, o enfermeiro, o trabalhador da educação, o técnico agrícola, o previdenciário? 

Então, agora, virá a enxurrada de reportagens e notícias falando mal do serviço público que é para preparar a população para o consenso, semelhante ao criado pela reforma trabalhista: “as medidas no serviço público melhorarão a vida de todos”. Mais mentiras que assumem o caráter de verdade por conta do bombardeio midiático. 

Aos trabalhadores está colocado o desafio. Sair do estupor. Juntar forças e organizar a luta. Afinal, se são as relações de classe que determinam a existência do capital, é preciso desarticular, desmontar esse edifício construído pela classe dominante. 2018 está muito longe. A destruição da vida está bem aí, na porta. É tempo de reagir, coletivamente, como classe trabalhadora. É nesse movimento que podemos avançar.   


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Lutar contra a fascistização da vida


 A miséria da política

Lembro como se fosse hoje aquela passeata, em Florianópolis, em 20 de junho de 2013. Era o auge dos protestos contra a corrupção - início da batalha contra o governo petista -  e a capital catarinense viu saírem às ruas pessoas que sempre jogaram pedra nos manifestantes tradicionais. O protesto juntou mais de 30 mil almas, coisa nunca vista. A RBS, rede catarinense filiada a Globo, transmitia ao vivo, e saudava a iniciativa. Estranhamente não chamava ninguém de “baderneiro”, nem se ouvia o estridente mantra da garantia do “ir e vir”. Naqueles dias, a classe dominante dava sua bênção para a ocupação das ruas, a Globo chamava ao civismo e as pessoas acorreram aos borbotões.  

Eu lá estava com os companheiros de sempre. E, aturdida, via as pessoas manifestarem seu ódio contra os militantes de partidos políticos e movimentos sociais. Ou seja, nós. A passeata virou uma batalha, na qual jovens vestindo camiseta – doada por partidos de direita – com inscrições contra a corrupção berravam: “sem partido, sem partido”, e enfrentavam os militantes que se agrupavam com suas bandeiras. Exigiam, de forma violenta, que fossem baixadas as bandeiras partidárias e que a passeata seguisse como uma gosma informe. Uma falsa gosma, pois como disse, os partidos de direita estavam ali, distribuindo camisetas e insuflando a massa contra os partidários da esquerda. Apenas não carregavam bandeiras, porque nunca o fizeram. Eles agem nas sombras.

Aproximei-me de umas jovens “encamisetadas”, que gritavam alucinadas, com olhos em brasa, contra as bandeiras de partidos de esquerda. E perguntei:

- Por que vocês são contra os partidos?

- Hã? É porque é sem partido, ora!

- Sim, mas por quê?

- É sem partido e pronto. Não fazemos política. Tu tem partido? – inquiriram e me encararam, agressivamente.

Naquele dia, uma massa furiosa nos atacou e obrigou que os grupos embandeirados se descolassem da passeata, seguindo na frente. Escancarava-se a luta de classes e o ovo do fascismo que tomou conta do país estava posto.

Lembro que comentei com vários companheiros sobre o que estava começando ali. No dizer de Adorno, o fascismo é um vírus que existe latente, em cada um. Diz ele que dadas as condições, ele brota, forte, e se espalha incontrolavelmente. Eu via aquilo na passeata. Um ódio irracional na massa, mas extremamente racionalizado nas direções políticas da direita. Um processo de construção de um consenso que foi crescendo, se consolidando e acabou no impedimento da presidenta Dilma. Jogada de mestre.

As atitudes fascistas também se consolidaram e estão a todo vapor. Uma delas é a proposta da “Escola sem Partido”, exatamente igual ao esquema das passeatas de junho. Sem partido de esquerda, porque os de direita poderão agir. Não querem que se fale de Marx, mas poderão incensar Hayeck. Então, como assim, sem partido? Mas, a massa desinformada não captura essa sutileza. Para ela, o mal é o socialismo, o comunismo, o velho discurso de volta outra vez.

Voltaremos a viver os terrores do fascismo cotidiano, com os nossos vizinhos denunciando-nos como comunistas, ou então colegas de trabalho, resolvendo questões pessoais com denúncias anônimas sobre nossas atividades de “doutrinação”. E a justiça, que é da classe dominante, agirá, confiscando nossos computadores e acusando de “comunistas”, como se sonhar e lutar por um mundo melhor fosse crime.

Pois essas são coisas que já estão acontecendo em todo o território nacional. Aqui em Santa Catarina vivemos o drama da professora Marlene de Fáveri, acusada por uma aluna de fazer proselitismo de gênero, seja lá o que isso seja.

E ontem na cidade de Abelardo Luz, no oeste do estado, dois trabalhadores do Instituto Federal de Educação, Ricardo Velho e Maicon Fontanive, foram denunciados, sabe-se lá se por um colega ou quem, de serem agentes do Movimento Sem-Terra dentro da escola. Seus computadores e celulares foram apreendidos pela polícia federal, com o beneplácito da justiça local, é claro. Eles foram afastados de suas funções públicas e foi quebrado o sigilo de correspondência eletrônica feita com a reitora Sônia Regina de Souza Fernandes. Ora, o MST é uma organização clandestina, por acaso? Não foi justamente esse movimento social de massa o grande responsável para que fosse criada a escola federal naquela cidade? Não foi a luta dos trabalhadores sem-terra que permitiu que centenas de jovens pudessem ter acesso ao ensino técnico de qualidade na região? Que crime pode haver, então, as ligações que por ventura alguns trabalhadores da escola tenham com o movimento? Pois, então, o que é isso? O acirramento da luta de classes.

Eu vivi a ditadura militar, como criança e adolescente, e lembro muito bem o terror que viviam as famílias que tinham qualquer posição crítica ao regime. Os vizinhos vigiavam e acusavam anonimamente, muitas vezes se aproveitando da denúncia de “comunista” para vinganças pessoais. Era um tempo de vigilância e de medo. Não se podia pensar. Só dizer sim, sim, sim, ao regime. Nas escolas, tínhamos educação moral e cívica, com a doutrina do terror. Isso podia, já falar de algum autor crítico, jamais. Era doutrinação. E é disso que se trata a Escola sem Partido.  

Mas, no covil dos fascistas, são os comunistas, os críticos, os diferentes, e qualquer outro inimigo, mesmo pessoal, os que devem ser perseguidos. Nós já passamos por isso. E não foi bom. Nem para as pessoas, nem para o país. Apenas o pequeno grupo que comanda é que se dá bem, enquanto a vida da maioria fica gris. Há que botar freio a essa fascistização da vida. Ou ela se espalhará como rastilho de pólvora, no fundamentalismo do terror. É hora de juntar forças, mulheres, negros, índios, trans, trabalhadores formais, informais, homossexuais, enfim, todos os oprimidos pelo capital e pelo patriarcado. Essa luta é de todos nós.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Quem é o inimigo?




Mulher e soldados têm algo em comum: são trabalhadores, da mesma classe. 

O sistema capitalista de produção é uma máquina de ódio e sobre esse sentimento se sustenta. Sua principal arma – que mantém a maioria das gentes sob seu comando – é a invenção de que o inimigo de cada um é outro. A pobreza, a miséria, a dor, a desgraça, a fragmentação, a doença, nada disso tem a ver com a forma como a sociedade se organiza. Tudo é culpa do outro. O outro passa a ser aquele a quem cada um e cada uma tem de eliminar.

Mas, prestem bem atenção. O outro que tem de ser eliminado não é qualquer outro. É o outro da mesma classe, a classe empobrecida. E essa é a que tem de se digladiar diariamente, para disputar um espaço na sociedade do “mundo livre”. Está consolidada a ideia de que o rico, o “bem nascido”, o criado a toddy é um abençoado por deus e a que ele se deve toda a reverência. A ele nenhuma culpa é imputada, nasceu marcado pela bênção. Se matar alguém dirigindo bêbado, pobrezinho, teve uma má noite. Se estuprar uma menina, coitado, não foi por mal. Se agredir uma mulher, estava exaltado. Se juntar os amigos para matar negros e gays, é porque essa gente não deve prestar mesmo. Essa é a ideia que permanentemente é inoculada nas gentes.

É claro que muitos conseguem escapar dessa lavagem cerebral, mas uma boa parte das pessoas é envolvida por essa ideologia. Então, o que acabamos vendo, perplexos, é pessoas da mesma classe, que sofrem os mesmos dramas, se agredirem em si, disputarem, competirem e até se matarem. Esse é o bom trabalho da ideologia. Tornar real o que não é. Mostrar como verdade o que é mentira. Iludir, enganar, obscurecer. E àqueles que são tomados por essa ideia de que o outro, pobre, negro, gay, comunista, macumbeiro, é o inimigo muito dificilmente conseguimos tocar com o discurso.

É por isso que não adianta muito insistir no facebook para que os paneleiros apareçam quando o Dória joga água nos mendigos em noites de inverno. Os que bateram panela contra o PT, a Dilma ou contra os comunistas, definitivamente acham que está certo “limpar” a cidade dos mendigos, porque a ideologia diz pra eles que os mendigos são ladrões e eles têm medo dos ladrões. Todos temos. Então, como o outro, sujo e desempregado, é o inimigo, que o estado o elimine.

Igualmente é inútil chamar os paneleiros para bater panela contra o Aécio, o Caiado, o Temer, ou o Gilmar Mendes. Eles fazem parte desse grupo de bem nascidos, sobre os quais não recai culpa. Imaginem se o neto do Tancredo vai ser um traficante? Isso só é possível aos pobres e pretos da favela. Rico não comete crime. Rico é abençoado.

Para os que estão sob o comando da ideologia só os pobres podem ser ruins, perversos, criminosos, violentos, inúteis. Vejam a Argentina, onde milhares se levantaram na última semana para exigir a aparição com vida de um artesão que foi levado pela polícia e sumiu. Pois se milhares pedem pela vida do jovem, outros milhares de seres silenciosos estão em casa, concordando com a ação da polícia. Afinal, pensam, o que um hippie, um artesão, representa para a sociedade? Nada. Eles não produzem para o sistema. Devem ser eliminados. E secretamente, essas pessoas assentem a cabeça diante do crime.  

Da mesma forma é possível sentir essa silenciosa aprovação quando os jagunços matam índios no Brasil, ou quando fazendeiros matam ambientalistas e sem-terra. O Datena grita na TV que eles são bandidos, vagabundos, marginais. E as pessoas assentem, crédulas, dando graças aos céus por haver jagunços e fazendeiros tão legais que limpam o mundo dessa ratatuia.

Como entender a simpatia que uma mulher da classe alta venezuelana, como a Lilian Tintori, desperta nas brasileiras. Ela é loira, jovem, rica. Seu marido, Leopoldo Lopez, é o responsável pela morte de mais de 40 pessoas nas guarimbas de 2014, e agora, durante as guarimbas de 2017, incentivou outras tantas. Então porque os brasileiros e brasileiras se doem tanto pelo fato de ele estar preso? Por que não fazem campanha pelos tantos negros e negras que hoje mofam nos cárceres, alguns até sem julgamento? Ou pelos que estão presos porque roubaram um pote de manteiga? Que mistério é esse que leva a tanta simpatia pela riquinha branca? É essa ideologia que promove a divisão entre os empobrecidos, para que permaneçam sempre atados ao poste da escravidão. Matem-se entre si, mas amem seus algozes.

É claro que essa silenciosa massa que odeia seus iguais não é uma gente do mal. Estão aí, pelos séculos e séculos sendo inoculadas nesse ódio aos seus. E não é coisa fácil escapar. Ainda que os empobrecidos sejam 99% da população mundial, não conseguem compreender o seu poder. E o poderoso 1% que domina o mundo tem os meios e as condições para sistematicamente fortalecer essa ideologia de que é o pobre que é ruim. Só ele pode ser capaz de maldades e violência e contra ele há que estar toda a força.

É por isso que gritar pelos paneleiros no facebook não ajuda em nada a mudar esse quadro. A saída é a lenta e esgotante batalha de construção da consciência de classe. Só que isso não acontece com discursos vazios ou cheios. A consciência de classe só desperta quando estamos jogados na luta coletiva. Quando caminhamos em comunhão na direção de um objetivo que transforme nossas vidas. 

E essa construção é algo que precisa de intenso trabalho na vida real, no chão do mundo, no encontro cara-a-cara com esse outro que nos vê como inimigo. Temos de retomar, com urgência, o contato com a vida. As novas tecnologias são boas, são legais, e podem até ser revolucionárias, mas elas sozinhas não mudam a vida. Assim como uma faca não pode sair matando sozinha, a internet também não tem esse poder. São as pessoas por trás da técnica que movem a roda da história.


Temos de voltar ao encontro, ao olho no olho, ao aperto de mão. Com o celular no bolso, porque não, mas tecendo a trama da vida na relação real. Os tempos estão sombrios e estamos perdendo. É hora de parar de resistir e atacar. Mas, para isso, temos de quebrar essa ideologia de que o inimigo são os nossos iguais. Dura batalha, dura batalha... Mas, temos de seguir.  


terça-feira, 8 de agosto de 2017

UFSC e Israel - uma parceria impensável?



O reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancelier recebeu em seu gabinete o Cônsul-Geral de Israel, Dori Goren. A pauta da conversa foi uma possível parceria público-privada para implementação de startups, um nome bonitinho/colonizado para um tipo de empresa de tecnologia em fase inicial, na modalidade .com.  

Além de receber um representante de um dos governos mais violentos da terra, em flagrante processo de genocídio contra o povo da Palestina, o reitor afirmou, segundo notícia no sitio da UFSC, que a gestão está aberta a parcerias com a iniciativa privada e, que, legalmente não há nenhum impedimento. Ainda acordou uma possível visita ao estado terrorista de Israel em novembro deste ano.

Mas a coisa ainda fica pior. O Cônsul deverá também realizar na UFSC uma série de palestras sobre História e Ciência Políticas. O que ensinará esse senhor? Como matar crianças, mulheres e velhos de maneira violenta? Como ocupar as terras alheias? Como dizimar um povo? 

Definitivamente é uma vergonha que a UFSC se preste ao papel de estabelecer parcerias com um país como Israel, que tem sido boicotado por todos aqueles que lutam por justiça para o povo Palestino. 

Israel, que é um estado teocrático e militarmente poderoso, aliado dos Estados Unidos para fazer a política suja no Oriente Médio – embora não merece nenhuma citação disso na mídia comercial, tão pródiga em atacar países que não se alinham com os EUA – vem desde o ano de sua criação, 1948, ocupando as terras palestinas, instalando colônias, promovendo assassinatos e torturas, inclusive à crianças.

É fato que a maioria das pessoas que circulam pela UFSC pouco se importam com a vida dos Palestinos. Mas outros há que sim, se importam e lutam para ver o fim do massacre e da violência. E esses repudiam veementemente a atitude do reitor.

O grupo "UFSC à esquerda", que reúne professores, estudantes e TAEs, publicou uma nota na qual repudia essa parceria, tanto a público-privada, contra a qual a comunidade universitária lutou incessantemente desde a sua proposição, quanto contra a com o estado terrorista, e lembra: “Neste caso, há uma dupla afronta ao sentido público da universidade. Não apenas coloca a produção de conhecimento e a formação dos estudantes a serviço de interesses particulares, mas o faz em parceria com o Estado de Israel – que violenta abertamente o povo palestino. Mais uma evidência de que em nome do pragmatismo de mercado esta universidade está pronta para abandonar qualquer compromisso com a vida dos povos.”

E assim vamos, caminhando para o abismo! 

Há quem venha dizer que um reitor tem de receber todo mundo. Certo. Concordamos. Receber sim, mas estabelecer parcerias com um estado terrorista? Aí já é demais. 





terça-feira, 1 de agosto de 2017

Dos tantos Rafaéis



Hoje no Brasil existem quase 800 mil pessoas encarceradas, 150 mil cumprem prisão domiciliar e existem mais de 300 mil mandatos de prisão que não são cumpridos por falta de vagas no sistema penitenciário. O que ultrapassa o número de um milhão de almas. O Brasil tem a quarta maior população carcerária no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, Rússia e China.  Mais de 250 mil pessoas estão presas de maneira provisória, com seus processos ainda não julgados. Menos de 1% dos encarcerados respondem por crime de corrupção, esse mote que levou milhares às ruas com suas camisas amarelas. 

46% dos apenados foram presos por crime contra o patrimônio, 28% estão encarcerados por envolvimento com drogas, apenas 13 % são crimes contra a pessoa e os negros são a maioria nos presídios: 61%. Esses números são do Ministério da Justiça e dizem respeito ao ano de 2014, portanto já devem ter aumentado bem mais. 

Isso leva a seguinte reflexão: a impunidade, de que tanto falam, não existe. Pelo menos não para os pobres e negros, a maioria nos presídios, no geral pagando por pequenos furtos ou o tráfico de drogas de pouca monta. Porque os figurões, os que são donos da droga, os que são os donos dos helicópteros e dos aeroportos, esses não vão parar na cadeia nunca. Eles estão nos salões e nas telas de TV curtindo a vida ou destruindo países. 

Rafael Braga, pobre e negro, preso em 2013 por portar um vidro de Pinho Sol durante uma manifestação está na prisão, mofando. Com ele, outros tantos, possivelmente mais de 90% da população carcerária. E olhem que levar Pinho Sol na mochila não configura crime algum. Já os ricos e bem nascidos que matam pessoas, por estarem embriagados ou que traficam drogas, não são tocados e saem da cadeia pelos braços de mães e pais bem posicionados.  A impunidade, portanto, tem um perfil de classe. As leis são feitas pela classe dominante, logo, servem a ela.

De minha parte, sou contra o encarceramento, a não ser em casos ultra/extremos. E esses são mínimos. A justiça deveria ser pedagógica.

Uma boa olhada nos crimes de uma sociedade nos leva a ver que muitos desses crimes se devem ao modo como a sociedade se organiza. Por que há tanta gente pobre envolvida com o tráfico de drogas? Por que as pessoas roubam? Essas são perguntas importantes.

Sendo assim, não se trata de defender cadeia para os ricos que cometem crimes. Não. Há que acabar com os ricos que gestam uma sociedade dividida, de maioria oprimida. Há que acabar com a divisão de classes e o domínio de uma sobre a outra. Construir uma sociedade sem classes, como no comunismo. Nesse modo de produção, não haverá ricos, nem pobres, todos terão o que precisarem na justa medida. E, vejam, o comunismo é apresentado como se fosse o diabo, enquanto o capitalismo – que é o diabo – é apresentado como o melhor dos mundos. Pois é mundo que está aí e que espelha esses tristes dados. 

Há que inverter a lógica, construir outra forma de organizar a vida. Ainda não chegamos a isso, e talvez demore muito para alcançarmos o comunismo (comum viver). E mesmo quando chegarmos ainda haverá crimes, pois o humano precisa de tempo para transcender. De qualquer forma, acredito que 90% ou mais desse trágico sistema prisional desaparece. Eu aposto nisso, e para isso caminho!

Sam


Tenho profunda predileção por figuras e personagens marginais. Essas pessoas que não aparecem, não por medo, mas porque não julgam necessário embandeirar seus feitos. E, são, muitas vezes, fundamentais para o desenrolar da história humana. Na arte, são os que me encantam e mais puxam meu olhar.
Na saga “O Senhor dos Anéis”, ainda que Frodo seja o herói, meu coração se aquece com a trajetória de Sam, o amigo que o acompanha e que, ao fim, é quem torna possível que a missão se complete. Ah, como ele é especial, e amigo, e leal, e companheiro, e terno. Depois, ao voltarem para casa, tudo o que quer é casar com seu amor e viver feliz. Tendo sido mais herói que o herói. Morro de ternura por ele.
Agora, na saga do Jogo dos Tronos, outro Sam rouba meu olhar. Desde sua aparição na patrulha da noite, com aquela pureza peculiar aos que são bons. Personagem marginal, mas capaz dos atos mais lindos. Ah, como ele é especial, e amigo, e leal, e companheiro, e terno. Absolutamente incrível seu gesto de salvar um completo desconhecido. Absolutamente adorável sua sede de saber. Mais herói que os heróis.
Gosto dessas gentes quietas, que olham com doçura, que sabem sem pompa, que amam sem reservas e que se enfurecem contra os vilões do amor.
John Bradley West, esse ator inglês que faz Sam, é perfeito... ! Pura doçura!!!


domingo, 30 de julho de 2017

Ainda é 1500



A cena é tocante. Na beira do asfalto, um grupo de indígenas olha, entre estupefato e triste, outro grupo de gente, branca, postado em cima da passarela. Os brancos estendem faixas, denunciando uma “invasão” dos indígenas e dizendo que a demarcação das terras ameaça o seus lares. São moradores da comunidade Enseada de Brito, que fica próxima à terra Guarani, no Morro dos Cavalos. Vê-se que são “bem-nascidos” e poderiam estar no rol das chamadas “pessoas de bem”. Um deles ostenta a camisa amarela da CBF, de triste papel no Brasil atual.  Na verdade, um pequeno grupo organizado por políticos da região ligados ao DEM. De longe, eles se olham. Os Guarani, como sempre, no silêncio circunspecto. Esperam, tranquilos, mas não mansos.

Lá no alto, os brancos ostentam o preconceito e a ignorância. Pouco sabem sobre o mundo indígena. Em nem querem conhecer. Tal como no longínquo 1500, chegam com suas bandeiras e verdades, vendo o outro, diferente, como inimigo. E não são.

Já os Guarani observam com aquele mesmo olhar afiado com o qual miraram as caravelas naqueles tempos distantes. Viram os homens chegarem e acolheram com risos e oferendas. Mas, ao longo desses mais de 500 anos, eles já sabem que a hospitalidade nunca valeu de nada diante da cobiça. Carregam bem fundo na alma e no corpo e memória da violência, do massacre, do assassínio, do terror.

Hoje, nesse domingo de sol, eles se olharam outra vez. Distantes. O diálogo mais uma vez impossível.

A terra da área do Morro dos Cavalos é uma terra que já foi demarcada, portanto, legalmente terra indígena. Ali vivem as famílias que conformam a comunidade Guarani. E, como é do seu costume, as famílias se movimentam dentro da área. Assim, ora estão aqui, ora ali. É a sua maneira de viver.
Incansáveis na perseguição aos indígenas, alguns políticos da região, liderados pelo vereador Pitanta (DEM), continuam provocando a discórdia na tentativa de jogar a comunidade de Enseada contra os Guarani. Já foi assim durante o processo de demarcação, foi assim durante a desintrusão, foi assim nas conversas sobre a obra na BR 101. Acostumados a mandar no pedaço, eles não reconhecem a forma de viver dos indígenas, não aceitam o fato de que a terra está demarcada e buscam atrapalhar a vida dos Guarani ao máximo, esperando talvez que eles desistam e vão embora.

É a história “patas arriba”. Chamam de invasores aos donos originários de toda aquela terra. Uma terra que os Guarani nem reivindicam, e poderiam. Afinal, tudo era deles. Mas, em vez disso, se contentam com o espaço conquistado, que nem é o ideal. Agora, tudo o querem é viver em paz, do jeito deles.

É uma vida de sobressaltos. Quando não têm de viver esses momentos patéticos, precisam se defender de jagunços, de jornalistas mal intencionados, de políticos oportunistas, da justiça, da polícia, de tudo. O tempo todo na defensiva, como se fossem bandidos. Não são.

A farsa da “manifestação” armada pelo vereador é só mais um ataque dos tantos, cotidianos e sistemáticos. Porque a intenção é colocar medo, fazer com que se movam, saiam da terra, abandonem tudo. Afinal, quem pode viver assim, o tempo todo ameaçado, acossado?

O dia acabou e os manifestantes foram para casa. Jantarão felizes, por certo, comentando a ação contra os índios, os quais odeiam sem conhecer. Na aldeia, os Guarani discutem e se preparam. Sabem que não acaba aí. A terra é ouro para o branco.

Estamos no século XXI e no Brasil os colonizadores conseguiram exterminar grande parte dos povos originários. As pessoas brancas acham bonito vê-los no museu ou nas apresentações do dia do índio. Mas, não suportam saber que eles estão por perto, que se movem, que lutam, que buscam garantir seus direitos. Índio bom é índio quieto e distante. Mas o fato é que eles estão aqui e aqui ficarão.

Tenho dúvidas sobre se essas pessoas que são capazes de sair à rua, portando cartazes que chamam os indígenas de invasores, estão abertas ao diálogo. Tenho dúvidas. Mas, é preciso seguir tentando. Os povos originários, que chegaram a um número de 150 mil nos anos de 1960, praticamente a beira da extinção, agora já passam de um milhão. Levantam-se e assumem sua identidade. Querem viver em paz nos seus territórios. Para isso é preciso que o povo brasileiro os conheça, sem armaduras, de peito aberto, pronto para um encontro verdadeiro.

No velho Brasil colônia, dominado pela cobiça, isso não foi possível. Mas, hoje, muitos há que se solidarizam, que respeitam, que apoiam e que lutam junto. Essa é ainda uma longa caminhada. Mas, não há saída. Como dizem os chiapanecas, das montanhas mexicanas: “nunca mais o mundo sem nós”. E assim é. É preciso reconhecer o território originário, demarcá-lo e garantir que os povos vivam em paz. Mas, não nos iludamos. O que está por trás de ações como essa de hoje, na Enseada, é a velha luta de classes. Os indígenas, como os trabalhadores empobrecidos, estão no mesmo lado. O inimigo é o mesmo. E contra ele, vamos – como dizia o velho Quixote – travar uma longa e feroz batalha. 

Fotos e informações: Comunidade Guarani