quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sobre os novos ricos do campo e sua direitização



Cenas do filme que conta a história de Zezé de Carmargo

Nos últimos meses muitas coisas bizarras têm acontecido. Além de tudo que advém do golpe, temos visto algumas manifestações de figuras públicas que nos fazem pensar.  Há nisso tudo uma espécie de padrão: pessoas famosas, que agora são ricas, mas que foram pobres e de origem rural. E que, paradoxalmente, professam uma ideologia que vai contra tudo o que alguém, que tenha vivido a dura realidade de ser trabalhador rural, poderia defender. Meu amigo Danilo Carneiro, que esteve na guerrilha do Araguaia e que segue estudando a realidade brasileira, diria: “Isso é natural, nega”.  E por quê? Porque as pessoas não conhecem a realidade, não estudam, se informam de maneira superficial sobre as coisas, e o capitalismo, através do seu braço armado – os meios de comunicações – bombardeia ideologia. Então, se ficam ricas, e sem mudar o padrão de conhecimento, tudo o que querem é esquecer o passado de privações, e tentar se pintar com as cores da classe para qual saltaram.

Falo isso por conta da triste postura dos cantores populares sertanejos, alguns dos quais gosto muito, como Chitãozinho e Chororó, Zezé de Camargo e outros tantos que a gente vê aí nas propagadas dos políticos de direita, defendendo a classe dominante e a consequente exploração dos trabalhadores. Muitos deles têm uma história triste, de pobreza e de grandes sacrifícios para conquistarem um “lugar ao sol”. Lugar esse que no geral significa dinheiro e fama. Raros são os que, ao enriquecerem, não renegam a classe de onde vieram. No geral, tornam-se fazendeiros, na ligação com o passado de trabalhador rural, mas possivelmente reproduzem nas suas propriedades as mesmas relações de dominação e exploração que viveram.

Marx, quando fala das classes, burguesia e proletariado, deixa claro que tem uma parcela das gentes que não se enquadra nessa divisão: são os camponeses, sejam eles ricos, remediados ou pequenos. Eles, ao contrário do trabalhador da fábrica, ainda têm o controle dos meios de produção. Tem a terra e podem dela viver.  São um estamento de difícil manejo e, no geral, pendem para a direita. Lukács, durante a revolução húngara, foi um dos que se ocupou com esse tema. Ele acreditava que era necessário um trabalho diferenciado com os camponeses, para trazê-los para o lado da revolução.  Não foi entendido. Insista que era muito difícil incutir nos camponeses – os que tinham propriedade – a consciência de classe trabalhadora. "Os pequenos proprietários agrícolas, como dizia Marx, formam uma enorme massa cujos membros vivem na mesma situação, mas sem entrar em múltiplos contatos uns com os outros. O seu modo de produção os isola uns dos outros, ao invés de criar entre eles um comércio recíproco... É assim que cada família de camponês... retira seus meios de existência mais da troca com a natureza do que com o comércio com a sociedade... Na medida em que milhões de famílias vivem nas condições econômicas de existência que separam seu modo de vida, seus interesses, sua cultura, dos das outras classes e os opõem como inimigos dessas classes, é que elas formam uma classe. E deixam de formá-la à proporção que só existe entre os pequenos proprietários agrícolas um vínculo local no qual a identidade de seus interesses não engendra nenhuma comunidade, nenhuma ligação de plano nacional e nenhuma organização política".

São questões instigantes as que nos propõe Marx e Lukács, e que nos permitem entender porque os ex-camponeses, agora fazendeiros novos ricos, como esses cantores sertanejos, vão se perfilando no bloco da classe dominante. Eles saem da condição de pequenos, dos que vivem de seus próprios meios, e adentram ao universo do “patrão”, tornam-se um deles. Passam a empregar pessoas, compram fazendas que não produzem, que são apenas uma espécie de pastiche – agora melhorado – da vida que tinham antes de enriquecer. Criam cavalos, ou gado, ou arrendam, e usam as mansões – a casa-grande – para o seu bem viver. Não vivem mais do campo, vivem da venda dos discos, dos shows, são escravos da indústria cultural. Estão colocados numa espécie de limbo, ou falso limbo. Porque, afinal, não são verdadeiramente camponeses, nem produtores. São unicamente proprietários de terra, terra que não é útil, mas que serve apenas como valor de troca, como especulação.  Nesse sentido, podem se sentir confortáveis na gaveta de “burguesia” ou “classe dominante”. Fazem parte do bloco restrito daqueles que detém propriedade.  Por isso defendem aqueles que julgam serem os seus iguais. Esquecem para sempre dos antigos parceiros de classe. “Venceram” na vida.

O mais doloroso é que muitos deles, falo dos cantores ou das duplas sertanejas, reproduzem, muitas vezes, na sua arte, as letras caipiras de raiz que justamente falam da dura vida do trabalhador do campo, seus dramas de amor, suas lutas, a necessidade da migração para a cidade, e suas saudades. Canções como “O menino da porteira”, “Cabocla Tereza”, “No rancho fundo”, “A colheita”, “O homem do campo”, “Uma casa de caboclo”, “No dia em que saí de casa”, “Tristeza do Jeca” e tantas outras que tocam o coração da gente justamente por observarem criticamente os dramas do mundo rural.

Assim, envolvidos pelo capital, eles usam as dores e as injustiças do mundo rural para transformá-las em valor de troca, enquanto a gente, que ama o campo e vive em nostalgia, apreende a música como um valor de uso, algo que aparece como vital para nossa existência, enquanto eles enriquecem e se apartam da sua condição de classe. É uma contradição.

Sim, há muitas duplas e cantores rurais que não estão no furacão da indústria cultural, que seguem cantando o campo sem perder o vínculo com sua classe. Mas, de qualquer forma, para a maioria das pessoas, é bastante difícil encontrar essas informações, visto que são bombardeadas pela indústria, que é quem, em última instância decide quem e o que toca no rádio e na televisão.

Então, resta à maioria “suportar” os novos ricos rurais, com suas calças apertadas e músculos cultivados, que entre uma música caipira de verdade, alternam outras composições de amor ou de sacanagem, ficando a música de raiz meio perdida. Mas, apenas meio perdida, porque ela é necessária para acender a memória. Por isso não foge dos repertórios. Os produtores, que vendem produtos musicais, sabem bem disso. Uso instrumental de um sentimento de amor.

Ao fim, tudo isso é pra dizer que a consciência de classe é coisa difícil de lograr, principalmente se o dinheiro entra nas vidas. E também uma tentativa de não demonizar as pessoas que não conseguem transcender, compreendendo-as no seu contexto. Não é fácil escapar dos tentáculos do capital. O fato concreto é que seguirei ouvindo algumas das canções do Zezé, do Leonardo, do Eduardo e outros, assim como leio os poemas de Borges. 


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Cursos Livres do IELA: A atualidade de Adelmo Genro Filho no jornalismo



Curso será ministrado pela jornalista Elaine Tavares, nos dias 21 e 28 de setembro, no horário das 9h e30 às 11h e 30min, miniauditório de Economia e Relações Internacionais, CSE/UFSC.

Adelmo escreveu sua teoria marxista do jornalismo em 1987. Seu foco foi o jornalismo informativo, a notícia. Ele mostrou que esse tipo de jornalismo não precisa ser superficial nem manipulador, como era e ainda é. Naqueles dias, a internet estava só engatinhando, as novas tecnologias nem se anunciavam. Entretanto, hoje, nada pode ser mais atual do que a proposta de Adelmo para a construção da notícia, visto que esta se mantém hegemônica no jornalismo. 

Os textos curtos, informativos, são incensados como os únicos que são bem recebidos pelo público. E no oceano da superficialidade desse jornalismo tipo manual de geladeira, Adelmo assoma como uma boia, não para salvar, mas para mostrar aos jornalistas que é possível construir uma notícia que possa escapar de sua imediaticidade, alcançando a totalidade do fato e produzindo conhecimento.

O curso oferecido pela jornalista Elaine Tavares não se propõe a uma exegese do autor. A intenção é mostrar como, nos limites dos anos 80, Adelmo enxergou uma vereda capaz de constituir um jornalismo de qualidade, mesmo no campo do “informativo” e mostrar como se pode construir notícias que fujam da “forma-mercadoria” tão comum nos tempos atuais. O segredo revelado em 1987 hoje é ainda mais sagaz e extremamente útil. Com ele, mesmo o jornalismo informativo pode ser conhecimento da realidade, com contexto, com profundidade e com bossa. 

O curso acontece em duas quintas-feiras no mês de setembro, 21 e 28, das 9h e 30min às 11h e 30 min, no mini-auditório da Economia. Vagas limitadas. Podem participar alunos de cursos de jornalismo, jornalistas e interessados no tema. A condição para a participação é a leitura prévia do livro: O segredo da Pirâmide – para uma teoria marxista do jornalismo, disponível no enlace: http://www.adelmo.com.br/bibt/t196.htm 

Inscrição no email do IELA: iela@contato.ufsc.br

O QUE? Curso Livre do IELA sobre a atualidade de Adelmo Genro Filho no Jornalismo, com a Jornalista do IELA, Elaine Tavares.

ONDE? Miniauditório de Economia e Relações Internacionais - UFSC

QUANDO? Dias 21 e 28 de Setembro, das 09:30 às 11:30


domingo, 3 de setembro de 2017

Das melancolias...



Há mais de dez anos que estudo, de maneira sistemática, os modos de produção das sociedades antigas, originárias, aqui do nosso continente, Abya Yala. E, todo encantamento que se me acomete com a originalidade e a beleza do modo de vida de tantos povos  é tripudiado por companheiros que, de maneira trocista, me acusam de querer voltar a idade da pedra.

Quando me aparecem com esse argumento tão frágil, insisto: não se trata de voltar ao passado, mas de tomar, do passado, as lições que possam fazer do presente e do futuro uma lugar melhor para todos.

É óbvio que esses 300 anos de capitalismo produziram coisas interessantes. O povo trabalhador, ainda que com sua força de trabalho capturada, deu vazão à sua criatividade e fez com que muitas coisas melhorassem a vida deveras. Mas outras não. Outras apenas “aparecem” como boas. Na sua essência, escravizam e alienam as pessoas, mantendo-as presas a roda insaciável do capital.

Dou apenas um exemplo bem prosaico. O celular. Quem pode dizer que o celular não é uma coisa boa? Ele tira foto, vira agenda, filma, manda mensagem, é reservatório de livros, é quase tudo na vida da pessoa e, ainda serve para falar com outro ser humano à distância. Uau! Perfeito. Mas, no sistema capitalista de produção, um objeto assim, tão completo, não pode ser algo que a pessoa compra e o tem para a vida inteira. Se fosse assim, acabava o ciclo e a roda econômica não girava. Então, a indústria criou, para o celular e para praticamente todas as mercadorias produzidas o que se conhece como “obsolescência programada”. 

E o que significa isso? Que a mercadoria tem tempo de vida definido. Ela não tem a durabilidade que muitas coisas tinham no passado. Por exemplo: tu fazias uma mesa e ela durava a tua vida, a vida do teu filho e dos teus netos. Não. Hoje não. Cada mercadoria tem um tempo fixo. Chega a sua hora e ela se desmancha, pifa, estraga. Precisa ser jogada fora, pois eles são construídos de tal maneira que não permitem o conserto.

No caso dos eletrônicos, como o celular, o computador, a máquina fotográfica etc..., a coisa é ainda mais grave, pois o material de que são feito não se degrada facilmente.  Assim, vai sendo criada uma montanha de lixo que o planeta não tem condições de assimilar. Só na Europa, onde esse problema começa a ser discutido, nos próximos três anos serão acumulados 12 milhões de toneladas de resíduos tecnológicos. Imaginem considerando o consumo de todo o planeta.

Hoje, diante do mundo, sinto-me conservadora. Gosto das coisas que ficam, que demoram a se acabar. Amo velhos móveis de madeira, roupas antigas que sobrevivem aos anos, artefatos que podem ser consertados milhares de vezes e que se renovam a cada mexida.  Amo canecas de louça que perdem um ou outro pedacinho, copos de lata e sapatos feitos à mão pelos artesãos de rua. Sim, gosto de algumas comodidades da vida moderna, mas queria que pudesse ser diferente. Sem tanta obsolescência. Fazem-me falta as coisas que perduram... Amores, amizades, olhares, coisas... Que mesmo na permanente mutabilidade da vida, ficam e ficam e ficam...



quarta-feira, 30 de agosto de 2017

As moedinhas do pai


O pai gosta de carregar moedinhas no bolso. Precisa saber que tem um dinheirinho ali, para se acaso precisar. Mas, quando vai dormir, acaba derrubando as moedas no chão e no dia seguinte as encontra outra vez, tornando a colocar para dentro do bolso.

Creio que é por causa disso que encasquetou que brotam moedas de baixo da cama. Todos os dias, ao cair da tarde ele pega a vassoura e arreda a cama para procurar moedas.

- Pai, não tem moeda aí, aquelas caíram do teu bolso.

- Não é não. Elas aparecem aqui embaixo, todos os dias.

E toca a passar a vassoura vezes sem conta.

Por conta disso, agora, passei a plantar moedas embaixo da cama.

É indescritível a alegria dele quando as encontra.

-Tá vendo, elas nascem aqui.

E bota as bichinhas dentro do bolso, feliz da vida. Para ele, a casa da moeda já é privada! 


terça-feira, 29 de agosto de 2017

Os desafios dos trabalhadores na conjuntura brasileira



Passado pouco mais de um ano do golpe parlamentar/judiciário/midiático que tirou Dilma do governo, o Brasil segue um vertiginoso processo de entrega de riquezas e destruição de direitos. Uma guerra de classes, como diz o economista Nildo Ouriques, das mais violentas, na qual a proposta fundamental é aprofundar a exploração dos trabalhadores para gerar mais lucro para o capital. Na verdade, nada de novo, a não ser a o desmascaramento. Ou seja, o sistema não usa mais as máscaras. Faz tudo às claras, sem medo da classe trabalhadora. Com o golpe, a face “humana” do capital se esboroa. 

Durante os governos de Lula e Dilma, a aposta foi na socialdemocracia. Uma tentativa de gerenciar a pobreza, mas sem conflito com o capital. As políticas públicas na área da educação, saúde, moradia e alimentação, ainda que utilizando pequenas fatias do orçamento, significaram muito para um contingente imenso de pessoas. Quarenta milhões saíram do terror da fome. Milhões de jovens sem acesso à universidade garantiram seu curso superior, milhares conseguiram casa própria e acesso à saúde. Esse legado é indiscutível. 

Pode-se criticar argumentando que as vagas nas universidades privadas enriqueceram os empresários da educação, que as moradias não são lá muito boas, e que garantir comida não é suficiente. Mas, para quem vivia no limbo, a melhora foi incrível. E são essas pessoas as que recebem Lula de braços abertos na caravana que corre o Brasil. Elas sabem que mudou, estão sentindo na pele.

De qualquer forma, o discurso de candidato que Lula tem assumido nos lugares por onde passa não consegue sair do mesmo modelo que regulou os seus governos. “O Brasil vai melhorar”, “vamos garantir vida boa para todos”, “vamos regular a comunicação”. Nada de novo. A mesma velha práxis do “deixa que eu resolvo”. Isso sem contar as arrumações com velhos adversários, reproduzindo a mesma conciliação de classe que deu no que deu. Já sabemos como acaba. 

Por outro lado, a classe trabalhadora brasileira está desarmada, para usar a feliz expressão de Plínio de Arruda Sampaio Jr. Durante 15 anos tivemos um movimento sindical domesticado, movimentos sociais apaziguados, todos contando com a “boa vontade” governamental. Claro que houve exceções, mas apenas exceções. A regra foi o aplastamento das massas e a desorganização. Por isso, agora, diante dos ataques violentos do capital sobre os trabalhadores, o que se vê a inação. “Os trabalhadores não estão apáticos. Eles querem lugar, resistir, mas estão desarmados”, diz Plínio Jr. 

O desarme é fruto dessa domesticação. Há uma geração inteira de trabalhadores que não viveu o período da ditadura, que não conheceu a batalha contra o neoliberalismo representado por Collor, Itamar e Fernando Henrique. E, por conta de não saber, não consegue encontrar o caminho para a resistência. Enquanto isso, os pequenos gerentes do capital, instalados no governo golpista e no Congresso Nacional vão passando o rodo, numa destruição aparentemente incontrolável. Destruição de direitos e entrega do patrimônio público. Privatização de empresas estratégicas e acumulação de riqueza sobre o corpo massacrado do trabalhador. 

No meio de todo esse violento processo de destruição da vida nacional, chegam as notícias que, num país sério, teriam o poder de desfazer o golpe: Ministério Público investiga e chega a conclusão de que Dilma não cometeu crime de pedalada fiscal (motivo principal para a destituição). Tribunal de Contas da União investiga e chega a conclusão de que o Conselho de Administração da Petrobras, presidido por Dilma Rousseff, não cometeu qualquer “ato de gestão irregular” no episódio da compra da refinaria de Pasadena. Ou seja: as denúncias – fruto de delação premiada  - que geraram o golpe, não tem qualquer sentido. Num país sério, no qual a Justiça se pautasse pela investigação segura, e não por delações suspeitas, o impedimento de Dilma deveria ser anulado. 

Mas, nada acontece. As informações saem em notas pequenas nos jornalões, e a vida segue. O governo ilegítimo vai tirando direitos, privatizando empresas, bancos e até a Casa da Moeda, entregando as riquezas minerais, vegetais e humanas. Tudo como foi planejado naquele fatídico áudio do Jucá. “A gente tira a Dilma, bota o Michel e fecha acordo com o Supremo, com tudo...” Tudo incrivelmente às claras.

Nas ruas, a reação teve seus momentos, mas agora estancou. E ainda que as pessoas estejam indignadas e querendo acabar com todo esse terror, essa indignação não se expressa em luta. E não é para menos. Foram anos e anos esperando que as coisas boas viessem do governo, acreditando que a conciliação de classe faria a elite abrir mão de alguma coisa para benefício das massas. Isso é impossível. Como na fábula do leão, as feras podem mudar em vários aspectos, menos nos hábitos alimentares. Assim, a classe dominante. Na primeira oportunidade de retomar o controle total do país, veio com tudo, sem pruridos.

O desafio da classe trabalhadora é dar origem a novas formas de luta. Os tempos mudaram. Há que constituir também as novas armas. Isso não é coisa fácil, mas o tempo urge. Há que começar.

Nesse processo faz-se necessário também compreender que é tempo perdido remendar roupa velha. O esgarçamento é incontrolável. Pois o modo de produção capitalista, esse sistema insaciável, já mostrou claramente qual é a sua proposta: exaurir o trabalhador, tirar dele toda a vida, até a última gota, na maior intensidade possível. E ainda que tente seduzir com mentiras do tipo: liberdade de ser quem se quer, possibilidade de comprar coisas com prestações a perder de vista, participar do banquete, ainda que comendo migalhas, é certo que isso não vai rolar. No capitalismo, o único lugar reservado ao trabalhador é o de explorado e ponto final.

Mas, o capitalismo não é o modo de produção. Ele é um dos modos. Outros existiram e outros podem existir. Quem decide isso é a maioria, e a maioria são os trabalhadores. Logo, são os trabalhadores que têm o poder de mudar as coisas. O próprio capitalismo já gerou seu antagonista: o comunismo. Se no primeiro a propriedade é privada, no segundo, ela é comum. Se no primeiro o trabalhador é explorado, no segundo ele é parte de um todo em equilíbrio para o bem comum. Se no primeiro a primazia é pelo valor de troca, no segundo é pelo valor de uso. Se no primeiro a mercadoria domina o humano, no segundo o humano é livre. E por aí vai. Então, qual o medo? Porque temer a vida boa e bonita?

É tempo... É tempo.  


domingo, 27 de agosto de 2017

Morreu o Birigui


            


Conto escrito nos anos 90, baseado numa notícia de jornal...




A notícia chegou sem muita surpresa no morro do Tico-Tico. Tinham matado o Birigui. No armazém do seu Antão, a rapaziada tomava sua caninha e discutia o assunto de forma acalorada. Gervásio ria alto, com sua boca sem dentes, dizendo a toda hora: “bem feito, bem feito!”. Maria Antônia, quieta no seu canto, perto da caixa registradora, lembrava o dia em que Birigui lhe cercara na boca do morro. Ele a tinha encostado ao muro, enquanto falava baixinho que ela era uma “nega” gostosa. Foi enfiando as mãos pelas pernas acima, apertando, apalpando e o cheiro de pinga que saía de sua boca ia penetrando nela com mais força que o dedo do invasor. Não tinha como gritar e, mesmo que gritasse, quem iria ajudar? Então, o jeito foi deixar-se ficar, muda, enquanto ele brincava nela até cansar. Depois do serviço, Birigui foi embora, assobiando um pagode do Aragão, sem nem sequer olhar para trás. Por isso, ela também repetia, no silêncio de si, “bem feito, bem feito”.

            Cada um naquele bar tinha uma façanha do Birigui para contar. Era nêgo ruim, vagabundo. Nunca ajudou a mãe, que vivia abraçada nos santos, pedindo proteção para o “pobre filho”, como ela o chamava. E o “pobre” estava sempre encrencado com a polícia. Tinha assaltado um mercadinho lá para os lados de Coqueiro, e acertou, sem dó, a cabeça do dono, só porque ele demorou-se em abrir a caixa onde estava o dinheiro. Traficava drogas e estava sempre aprontando. Isso sem contar o número de mulheres que ele havia estuprado ali mesmo, no morro.

            Ninguém, em sã consciência, gostava do negro agigantado, com aquela marca de queimadura no lado direito da cara. A mãe dele contava que o acidente, responsável pela cicatriz, tinha acontecido nos tempos de criança. Ele havia queimado a cara no dia em que botara fogo num gato, que tinha amarrado vivo, numa espécie de pau-de-arara. Era nêgo ruim o Birigui. 

            Quando trouxeram o corpo para o morro, a correria foi geral. Todos queriam ver a cara daquele a quem nunca tinham ousado desafiar. Antes, ele era o dono do morro, agora estava ali, servindo de piada para todo mundo. Até os garotos menores, vinham e tocavam, sem medo, na queimadura da cara, puxando para ver se era real. Depois, riam, riam muito e berravam, “olha a cara do negão, olha a cara do negão”, numa espécie de cantiga de roda.

            O seu Antão, satisfeito, ofereceu o espaço do bar para fazer o velório, afinal, no barraco da velha não iria caber toda a gente que queria olhar para o Birigui inerte, morto, sem perigo. Assim, a notícia do velório no bar logo se espalhou. Foi colocada uma cartolina branca, com enormes letras vermelhas, bem na porta do armazém. “HOJE PROMOÇÃO: CERVEJA GELADA SÓ UM REAL”.

            Quem subia o morro, na volta do trabalho, via a placa e ia ficando. Era o velório do Birigui. Farra total. Na pequena sala, de chão de madeira, colocaram o caixão aberto. As cadeiras ficaram encostadas no lado direito da sala, para os parentes. Mas de parente mesmo, apareceu só a mãe. Ela chegou cedo, na mesma hora em que chegou o caixão. E ficou ali, sentada, quase sem se mover. Só os lábios mexiam num sussurrar sem sentido, talvez numa língua desconhecida, destas dos orixás que enchiam que enchiam seu congá. Não tinha lágrimas a velha. Todas já haviam secado, ao longo dos oitenta anos de vida.

            E enquanto ela adormecia o filho bandido com suas rezas, em volta o clima era de festa. Seu Antão ia e vinha na velha geladeira, buscando a cerveja gelada. Os filhos da nega Carlota enrolavam um cigarro de maconha e já tinha gente por perto querendo ajudar a “puxar”. As meninas foram chegando com roupas de domingo, os cabelos amaciados com manteiga de karité. Juvenal trouxe o violão e logo Maneco mandou buscar o pandeiro e o cavaco. A galera se assanhou e, em dois toques, o pagode correu solto. Algumas mulheres, vizinhas do barraco do Birigui, trouxeram linguiça para fritar, e logo um cheiro gostoso invadiu o velório.

            No pique do samba, decidiram afastar o defunto para o lado, quase colado à parede. A velha mãe seguiu junto, com suas lamúrias, parecendo não notar a festa que rolava ao seu lado. Quando o samba parava para a rapaziada descansar, a mãe Mariana vinha com seus causos de assombração. Nesta hora, todos davam uma espiadinha no morto. Manezinho, chapado, levantou com fúria e, sem mais delongas, acertou a cara de Birigui.

            - Reage agora, vagabundo – berrava com a voz pastosa, os olhos vermelhos feitos brasas. A galera ria e aplaudia.

            Quando o dia clareou, encontrou a velha ainda ao lado do caixão, ela também um pouco morta. As portas do bar estavam fechadas e, do lado esquerdo, perto do balcão, saíam gemidos. Era Eneida, que se enroscava no corpo do Dagoberto, numa dança de pernas e bocas. Estava acabado o velório. Dali a pouco seria hora de enterrar o morto. E quando o casalzinho afogueado saiu do bar, o velho Biga gritou, do barraco da frente.

            - Festa boa, heim?

            E Daboberto, ajeitando as calças, retrucou:
            - Boa demais para um safado feito o Birigui.  
                   
            A nêga sorriu e foi se afastando, subindo o morro com o passo cadenciado de velha passista.  

            Ninguém acompanhou o enterro de Birigui, só a mãe. Afinal, aquela gente ali tinha muito mais o que fazer na vida.


sábado, 19 de agosto de 2017

Casa da América Latina






Fotos: Rubens Lopes

Minha casa, nossa casa: Abya Yala

Florianópolis inaugurou nesse dia 18 de agosto a Casa da América Latina, uma proposta que floresceu a partir da professora da UDESC, Carmem Suzana, e que foi abrindo raízes junto a outras companheiras e companheiros, também latino-americanistas. Essa vontade viva de ter um espaço onde os irmãos e irmãs de Abya Yala pudessem se encontrar e onde pudesse pulsar essa alma mestiça de negro/índio/espanhol/português que nos faz povo.

Pois nessa noite foi assim. Amigos, música da pátria grande, Artigas, lembranças, emoções, alegrias. Tudo junto e misturado nessa paixão que move a vida desde que Bolívar entendeu que sozinhos somos fracos, juntos somos gigantes e saiu por aí a semear. Simón não viu acontecer, Artigas também não. Mas nós a faremos, pátria/mátria nossa.

A inauguração teve sons da américa, batida de tambor, chorinho, poesia, imagens. Teve comida compartilhada, teve criança, velho, moço. Teve argentino, uruguaio, chileno, cubano, brasileiro, caboclo, branco, negro, índio, tudo o que somos. Teve abraço, teve riso, teve até lágrimas. Essas que brotam da pura emoção da vida compartilhada. E teve a presença segura da sempre amada Gina Couto.

Nessas imagens de Rubens Lopes, um pouco da alegria que nos invadiu. A alegria que vem da certeza de somos companheiros e estamos juntos, mesmo que a vida esteja gris, que haja golpe. Porque somos Abya Yala, somos povo latino-americano, somos um só vibrando nesse imenso continente. Caminhamos... Estamos juntos...