quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Vitória dos Amarildos

A comuna Amarildo já dá seus frutos

As vitrines da “ilha da magia” já iluminavam um vindouro natal naquele dia 16 de dezembro de 2013, quando, na madrugada, um grupo de famílias, sem condições de pagar aluguel na grande cidade especulada, decidiu ocupar uma área na região mais nobre da ilha de Santa Catarina: Canasvieiras, a super praia amada pelos turistas. E, bastou que as lonas dos barracos fossem vistas da estrada, para que começasse o furdunço. Num átimo e lá já estava a polícia e um pretenso dono do lugar, até então, um vazio. Quem reivindicou a terra foi uma empresa chamada Florianópolis Golf Club, de propriedade de Artêmio Paulo, que, em tempo recorde, conseguiu a reintegração de posse. O judiciário, sempre ágil para servir aos ricos, já mandou arrancar as famílias e derrubar os barracos.

Mas, as coisas não foram tão simples assim. As 60 famílias que ocuparam o lugar deram a ele o nome de “ocupação Amarildo de Souza”, em homenagem ao trabalhador negro, desaparecido em uma UPP, na Rocinha, e decidiram resistir. Naqueles dias, ninguém sabia, mas essa ocupação iria levantar o véu espesso que cobria a questão da posse das terras em Florianópolis.    

A proposta dos “Amarildo”, como ficaram conhecidas as famílias, era a de constituir ali, naqueles 600 hectares de terra uma comunidade agrícola, onde pudessem plantar e viver. Boa parte das pessoas era migrante e saíra do campo em busca de vida melhor. Na capital, as famílias viviam de bico ou no subemprego, e não conseguiam garantir a moradia. Ocupar foi a solução. Afinal, terra vazia, sem cumprir função social, é passível de expropriação.

A resistência dos Amarildo foi grande. Eles foram tirados do terreno de Canasvieiras, depois foram para outro no Rio Vermelho, onde a população os rechaçou violentamente. Com crianças, velhos e mulheres, eles tiveram de se mover e chegaram a ir para uma terra que era dos indígenas. Mais conflito. Passaram-se meses, de ocupação em ocupação, insistindo junto ao Incra para que garantissem uma terra. Afinal, o que eles queriam era integrar-se ao processo de reforma agrária, conquistando terra e plantando.

Finalmente, depois de muita batalha, eles foram levados para a cidade de Águas Mornas, onde as famílias foram assentadas em pouco mais de 130 hectares. Já não eram mais as 60 da primeira ocupação. A dureza da resistência e a necessidade de ganhar a vida na capital mesmo foram fazendo com que muitos tivessem de desistir. Mas, os que ficaram logo arregaçaram as mangas e começaram a fazer a terra parir. E ela deu frutos. Em pouco tempo já havia uma boa plantação de hortaliças, produção de geleias, criação de galinha, e as famílias já começavam a comercializar.

Ainda assim, as coisas não estavam definidas e a luta pela posse definitiva da terra seguiu. Finalmente essa semana, os Amarildo tiveram uma vitória. O INCRA de Santa Catarina formalizou, através de publicação no Diário Oficial, a criação do Projeto de Assentamento, na modalidade Desenvolvimento Sustentável, para a Comuna Amarildo de Souza. Isso significa que agora eles estão legalizados e poderão, inclusive, garantir recursos para seguir plantando com mais eficácia e qualidade.

Por isso não era sem razão a alegria imensa estampada no rosto de Daltro de Souza, uma das lideranças da área, quando me entregou nessa manhã de quinta-feira, a cópia do documento oficial. Naquele pequeno pedaço de papel estava plasmada toda uma batalha, que durou mais de três anos, travada na escuridão dos barracos de lona e,  depois, na solidão da distância, em Águas Mornas.

Agora, novos caminhos se abrem para os Amarildos e muito trabalho está por vir. As famílias que perseveraram seguirão trabalhando e produzindo a comida que chega à mesa do povo da cidade. E quando a noite chegar, eles poderão descansar a cabeça na sua terra.

Mas, apesar de estarem distante da capital, onde tudo começou com a ocupação do terreno na beira da praia, os Amarildo deixam em Florianópolis a sua marca. Depois da ocupação de 2013, que ousou questionar a posse da terra urbana, muita água rolou. Aquela ferida aberta na região mais nobre da ilha moveu o historiador Gert Shinke a pesquisar sobre quem eram os donos das terras na ilha. E sua escavação nos arquivos acabou descobrindo a gigantesca farsa da “reforma agrária” feita durante o regime militar, na qual os governantes distribuíram terras aos amigos. Um vespeiro que ainda está zunindo e que pode ter consequências.

Lá em Águas Mornas, as famílias da Amarildo agora dormem em paz, enquanto que nas casas-grandes dos surrupiadores de terra a chapa esquenta. Não que se tenha fé no judiciário. Impossível. Mas, pelo menos, o véu está rasgado e alguma incomodação eles vão passar.


Na comuna, mais do que nunca, ecoa o bordão pelo qual eles são conhecidos: “Firmes!” E cada vez mais. Vida longa para a comuna, vida longa Amarildos. 


terça-feira, 17 de outubro de 2017

A morte do outro não importa

Tragédia na Somália: uma a mais no doloroso processo de libertação

O mundo ocidental se move por uma premissa que vem da cultura grega: o ser é, o não-ser não é. E o que significa essa frase tão enigmática? Que só é reconhecido como ser aquele que é igual. O outro, esse não existe. Não-é. Não tem importância. Sendo assim o que é para o mundo ocidental europeu/estadunidense? Aquele que é igual a eles: branco, rico, capitalista, guardião da ordem e da moral. Tudo o que sai desse script não-é. E, não sendo pode ser destruído sem dó. Sobre a morte desse outro que não-é, não se fala, porque não importa.

É por isso que o massacre perpetrado pelos Estados Unidos nos países do Oriente Médio não tem a menor importância para o mundo ocidental. Todos os dias, os “mariners e seals” matam 20, 30, 40 iraquianos na sua já eterna campanha contra o “mal”. E as pessoas seguem vivendo sem se importar. O picoteamento do continente africano em inúmeros países, criados pelos interesses dos povos europeus, sem que fossem levadas em consideração as histórias e tradições dos povos do lugar é outro exemplo. Todos os dias morrem milhares por conta da ocupação colonial e sua herança. Poucos se importam.

Nessa semana, na capital da Somália, Mogadíscio, dois caminhões bomba explodiram causando um massacre, matando cerca de 300 pessoas e ferindo outras tantas. Foi o pior ataque nos últimos anos, em um país que foi completamente destruído por conta dos interesses dos Estados Unidos. Guerras internas, fomentadas na disputa socialismo  x capitalismo destruíram o país no início dos anos 1990, depois de um golpe contra o presidente Siad Barré, alinhado ao socialismo. Desde então, grupos locais se revezam no poder.

E como sempre acontece, por conta dos conflitos internos, e sendo a região estratégica para a navegação, com grandes reservas de minério de ferro, estanho, gipsita (gesso natural), bauxita, urânio, cobre e sal, além da suspeita da existência de reservas de petróleo e gás, o governo dos Estados Unidos decidiu ir para lá, “promover a paz” com seus soldados. Desde então vem promovendo ações para garantir o controle da área. De certa forma, como nos países do Oriente Médio, acaba por incentivar cada vez mais o aparecimento de grupos radicais. Agora, no último mês de março, o presidente Trump autorizou a intensificação dos ataques aos grupos em luta, que eles chamam de “terroristas”, e foi isso que acabou provocando o ataque.

Mas, a Somália é um lugar onde vivem não-seres, gente pobre, negra, muçulmana, que, por um azar do destino, nasceu num ponto estratégico para os “donos do mundo”.  Fica numa região chamada de “corno da África”, ponto mais oriental do continente africano. Então, a morte de centenas e centenas de somalis aparece como apenas uma estatística, exatamente como a dos iraquianos, os afegãos, os paquistaneses, etc...

Então, não adianta clamar nas redes sociais para que coloquem a bandeira da Somália no facebook. Isso não muda em nada o drama que se desenrola naquele despedaçado país. O melhor a se fazer é tentar sair da armadilha filosófica que acaba dominando a realidade na qual o que não é igual é passível de destruição, sem que se sinta remorso ou empatia. E isso é uma pedagogia que está na tele da TV todos os dias, em programas como A Fazenda, Big Brother, e outros afins. Lá, as pessoas que não se encaixam no perfil do público são “eliminadas”, em rede nacional, no grande coliseu eletrônico. E é assim que todos vão aprendendo a eliminar os não-seres, consolidando essa  forma de pensar.

Enrique Dussel, filósofo argentino, construiu outro modelo de pensamento que ele chama de filosofia da libertação. Nele, o pressuposto grego muda radicalmente. Se para o mundo ocidental/burguês o ser é, e o não-ser não-é, para a proposta de libertação, o ser é e o não ser é real. Isso muda tudo. Aquele que é diferente existe, tem nome e sobrenome, precisa da nossa empatia. E é essa atitude que permite que possamos sentir na pele, como dizia el Che, a dor do outro, caído e oprimido. Só assim poderemos caminhar para um mundo de bem viver.

Há um episódio, da famosa série televisiva Black Mirror, que mostra a lógica grega/ocidental na sua forma mais terrível. Nele, soldados estadunidenses aparecem sendo treinados, com manipulação psicológica e física, para ver os inimigos como baratas. Eles então são mandados à guerra e matam sem dó nem piedade tudo o que encontram pela frente. Eles não enxergam pessoas, enxergam baratas gigantes, monstros. Por isso não se apiedam. Essa lavagem cerebral é a que vivemos todos nós. Ao ver um negro, um árabe, um pobre, um gay, um travesti ou qualquer outro ser que não-seja igual ao que temos por “normal”, o que vemos são baratas gigantes, que podem ser amassadas sem que vertamos uma lágrima.

Pessoas há que estão fora da bolha. Que conseguem ver os homens, as mulheres, as crianças, de olhos graúdos e sorriso largo, querendo viver. Esses se importam. Mas, ainda assim, não basta clamar no facebook. É necessário o trabalho político sistemático e organizado para mudar a filosofia e ordem das coisas. Ação concreta na vida, bem aqui, na vida cotidiana, no sindicato, no partido político, no movimento social. Porque se mudamos a forma de pensar e fazemos esse pensamento avançar, a vida dos iraquianos, afegãos, palestinos e somalis também pode mudar.

A tarefa é essa, entender que o não-ser é real, que o opressor é real, que o sistema que nos aniquila é real e sobre isso temos de atuar. Acolhendo o diferente, o caído, o real, e encontrando caminhos para mudar esse modo de organizar a vida, que transforma humanos em coisas para o enriquecimento de uns poucos. Entender que vivemos uma guerra de classes e que a primeira batalha a vencer é justamente a filosófica, embora ela pareça a mais distante.

Seguiremos denunciando as atrocidades cometidas pelo mundo afora pelos “senhores da guerra”, liderados pelos Estados Unidos ou fomentados por eles. Mas, só denunciar não é suficiente, visto que para um grande número de pessoas, “essa gente longínqua” não interessa para nada. E a melhor maneira de ver o outro, diferente, é provocar o conhecimento sobre ele. Os negros somalis que alucinadamente atacam navios no chifre da África, como nos aparecem nos filmes de roliúde (pura ideologia), estão vivendo a fome, a guerra, a miséria, desde os anos 90. Estão fazendo o que podem para sobreviver, enfrentando o maior exército do mundo. Não são loucos, não são baratas e se estão “terroristas” há que se perguntar: por quê?


Entender o mundo, entender as relações sociais, colocar-se no lugar do outro e lutar efetivamente contra o sistema que oprime e destrói. Esse é o caminho para a mudança. 


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Milanesas




Minha mãe odiava cozinhar. Mas, cozinhava. Nunca trabalhou fora de casa e então, sobrava para ela essa tarefa difícil. Acordava às 10 horas da manhã e já vinha resmungando. Sempre foi assim. Tomava um cafezinho preto e já começava as lides da cozinha. Geralmente mantinha uma horta, com verduras e legumes. Nunca foi capaz de fazer um prato só. Quando dava onze e meia, e o pai chegava do trabalho para almoçar, tudo já estava na mesa. Havia sempre uns três ou quatro tipos de comida diferentes. Todos com um sabor espetacular. Sempre me surpreendeu aquilo, visto o mau humor que tinha ao prepará-los.

Não gostava que metêssemos o bedelho na cozinha, mas ainda assim, fui aprendendo, no olhômetro, os segredos de sua culinária. Saí de casa bem cedo e quando vinha, nas férias, gostava de cozinhar pra ela, aliviando-lhe o fardo, ainda que por poucos dias. Ela deixava, mas ficava na supervisão. Assim que meu jeito de cozinhar tem o jeito dela.

Tal qual ela tampouco gosto de cozinhar. E tive sorte. Saí de casa cedo e desde os 17 anos vivi sozinha, sem preocupações com horários ou almoços. Comer fora virou hábito e nos finais de semana sempre me satisfiz com um sanduba ou um arroz com ovo. Quando resolvi enfrentar uma vida a dois, lá pelo final dos anos 90, também me presenteou a sorte com um companheiro que gosta de comandar a cozinha. E quando meu sobrinho veio morar comigo trouxe sua veia gourmet. Sorte grande em dobro. E eu fora da cozinha.

Agora, há mais de um ano estou cuidando do meu pai. E nisso, vou vivendo um processo de re-cordações. Voltam ao coração às lembranças de um tempo que ele vai esquecendo. É como um jogral maluco. Dentre essas coisas que ele esquece e eu lembro está o gosto da comida da mãe.  E como às vezes eu fico sozinha com ele, sou obrigada a voltar à prática das panelas, afinal, a comida tem de aparecer na mesa.

Hoje, resolvi fazer bife à milanesa. Minha mãe os fazia de um jeito espetacular, ao estilo argentino. Quando ela anunciava esse prato, as bocas salivavam e até os vizinhos passavam pela cozinha para experimentar. Eram famosos os milanesas. Puro primor. Assim, ouvindo sertanejo de raiz e tomando vinho com o pai, fui construindo o edifício do sabor, exatamente como ela fazia. Havia tanto tempo que não me aventurava por esses caminhos e não sabia o que poderia dar.

Mesa posta, milanesas prontos, servi com arroz e purê. A carne era macia e o pai comeu três bifes, com estalos de prazer. Quando já ia terminando o terceiro, vaticinou: “estão iguais aos da Helena”. Era a primeira vez que ele falava da mãe em meses. E saiu assim, naturalmente, como se nada. Eu fiquei quieta e ele seguiu mastigando, tranquilo.

A vida e suas prosaicidades... 


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sobre Lula e o espetáculo judiciário



Sempre é bom frisar. Não sou petista, nem lulista. Faço minhas críticas ao governo do PT desde que Lula, no primeiro mandato, fez a reforma da previdência dos trabalhadores públicos. Nunca me abstive de apontar os erros e os equívocos e considero que os quatro mandatos petistas causaram muito mal aos trabalhadores, em vários aspectos. Desde a cooptação de lideranças até a responsabilidade pela domesticação e desarmamento político de sindicatos e movimentos. Isso sem falar na política econômica, na conciliação de classe e muito mais. Mas, também nunca me furtei a aplaudir o que sempre considerei importantes pontos, como a eliminação da fome e a criação de vários programas sociais que ajudaram milhões de famílias a sair da pobreza extrema.

Também já me manifestei várias vezes sobre o que considero um tremendo absurdo: o fato de o judiciário burguês, que é o realmente existente, não cumprir suas próprias regras no trato com os cidadãos e cidadãs. Sejam eles pobres, negros, favelados ou figuras em queda da classe dominante. A lei burguesa, que dizem valer para todos, é clara no quesito presunção de inocência e certas coisas só podem passar a alguém depois que foi julgado e condenado.

Bom, isso nunca foi respeitado no trato com as gentes empobrecidas. Desde minhas primeiras reportagens nas delegacias por onde andei, sempre foi comum delegado mandar filmar cara de “vagabundo”, mesmo que só pairasse sobre o dito cujo a mera suspeita. Fosse pobre ou preto, tudo era permitido. No geral, figuras ilustres ou filhos da classe dominante nunca passavam por esses constrangimentos. Caso fossem presos eram preservados, suas imagens não eram permitidas em nome do direito do cidadão em não querer ser filmado, ainda mais numa situação vexatória.

A queda da presidenta Dilma, a partir de um golpe, tendo como pano de fundo uma histeria anticorrupção por parte da população que, sempre foi muito bem dirigida ao PT em particular, virou essa prática de cabeça para baixo.  Na ânsia de derrubar os políticos petistas naquilo que eles tinham como patrimônio (a ética), todos os holofotes passaram a ser dirigidos a eles, e uma pequena suspeita já era suficiente para espetáculos midiáticos, repetidos à exaustão nos meios de comunicação. Assim, o que era uma prática para os empobrecidos passou a ser usada também com importantes figuras da política. Detenção escandalosa acompanhada pela mídia, algemas, prisões preventivas, raspagem de cabeça, toda a sorte de humilhações, comuns aos comuns, e que agora eram usadas também com os políticos, “essa raça ruim”.

Na malta enfurecida pouco importava que se dissesse que eram ações ilegais, que estavam ao arrepio da lei, que não respeitava a presunção da inocência. Não. Danem-se! A regra era a mesma já tão familiar às famílias de bem, a pedagogia do Big Brother: elimina, elimina, elimina.  E assim foram caindo figuras como José Dirceu, José Genoíno e tantos outros em julgamentos estranhos, nos quais não apareciam provas, mas apenas convicções.

O alvo sempre mirado era Lula. Havia que encarcerá-lo também, fazê-lo passar por toda a humilhação reservada aos párias. E começaram os ataques. De novo, ações espetaculares, atos de mídia, teatro romano, detenção coercitiva, colheita de documentos, intimações, tudo para seguir incentivando a histeria anti-PT. Pelo que se sabe nada de provas contra Lula. Nenhum ilícito. Ainda assim ele já foi condenado pela compra de um apartamento que, como já foi provado, nunca foi efetuada. Um processo digno de Kafka. Uma aberração. E a cada novo documento apresentado, novas convicções: os documentos são falsos, as alegações não são verdadeiras. Tudo baseado no desejo dos juízes. O direito do desejo. Essa é a cruz dos petistas.

Mas, como tudo escapa, a sanha contra os petistas foi tocando outros nichos e outros personagens foram sendo igualmente enredados na rede dos abusos. Corruptos confessos, por conta de delações espetaculosas, iam agregando “provas” (feita do disse-me-disse) e saindo ilesos. Novas prisões de “inimigos menores” como Cabral e Garotinho seguiam a cartilha irresponsável da ação conjunta polícia/mídia. Até o milionário Eike Batista passou pela dolorosa exposição vexatória, de cabeça raspada, adentrando o presídio. E os juízes começaram a ganhar as redes como novos heróis da malta. Como se tudo isso estivesse barrando a corrupção. Não está. pelo contrária, ela avança, e está nas entranhas do poder.

Em Santa Catarina o modelo espetacular da trinca judiciário/polícia/mídia levou um homem à morte. Acusado de tentar obstruir uma investigação sobre corrupção no interior da universidade, o reitor da UFSC foi preso de forma espalhafatosa e submetido ao escracho público. Nenhum documento, nenhuma prova, nada que pudesse transformá-lo em um risco para a sociedade. Ainda assim foi levado ao presídio de segurança máxima. O reitor não suportou ver toda a sua vida escapar das mãos por um ato tão insano. Matou-se. Ainda assim, as gentes que atuam nessas áreas não arrefecem. Lançam notas dizendo que estão certas. E que é assim mesmo, e é porque é.

Essa semana, outra vez o denuncismo anônimo levou a polícia, sempre junto com a mídia, à casa do filho de Lula. Acusação: ele estaria fumando maconha. Opa! Teria dentro da casa a carga do helicóptero encontrado na fazenda de Parrela? Não. Ele estaria fumando. Ah, tá, então é crime grave. Invade! E lá foi a polícia com um mandato fazer revista na casa para achar um baseado. Não achou. A tática é boa. Já que não dá para pegar o Lula, vamos destruindo pelas beiradas. Pega um filho aqui, uma sobrinha ali, uma tia, um primo, um cunhado e tudo isso pode formar um mosaico que diga o quanto Lula é ladrão. E dê-lhe a alimentar a histeria, para que os julgamentos se façam nas redes sociais e nas ruas, e a condenação aconteça sem passar pelos tribunais. Está abolido o direito. Agora é a malta ensandecida que decide e abaixa o polegar como nos espetáculos romanos, exigindo a morte do gladiador.

Tenho gravada na mente a frase do desembargador, amigo do reitor Cancellier, na sessão fúnebre da UFSC: “Eu não conheço esses juízes, esses delegados. Não conheço e não quero conhecê-los. Porque tenho medo deles”. Eis o drama. Quando aqueles que deveriam ser os guardiões do direito nos provocam medo, que fazer? É a treva.

O clássico do cinema “O advogado do diabo” é uma boa reflexão para esses tempos. Quando a vaidade assoma tomando conta de tudo, nada mais pode ser parado. O ovo da serpente choca serpentes. A justiça não é uma ação espetacular. Ela é, ou deveria ser, espaço do cuidado e da dignidade. E os crimes deveriam ser investigados no silêncio das sombras, para não espantar o criminoso, para preservar as provas e tudo mais. Os agentes da lei deviam ser alguma coisa assim como o Batman, necessários às gentes, mas anônimos, para que pudessem atuar melhor, garantindo a justiça e não alimentando o ego. Os holofotes acendem a vaidade e a vaidade é a porta do inferno. Para o vaidoso, e para os que ele ataca. 

Não sei se Lula é ladrão, nada foi provado. E mesmo que fosse. Nem ele, nem o Eike, nem o reitor, nem o Garotinho, nem o Rafael Braga ou a qualquer outra pessoa precisa passar pelo aviltamento de ser julgado antes de ser condenado, antes que tenham sido respeitados todos os ritos da Justiça. 

Isso é o mínimo que podemos querer, apesar de saber que ainda assim pode haver injustiça.

Mas o linchamento público, feito com base na histeria descabeçada, fatalmente leva a tragédia, como a que vivemos agora, aqui em Florianópolis, com a triste decisão do reitor da UFSC. 

Há que estancar esse surto sob penas de perdermos o controle sobre a Caixa de Pandora. Uma vez aberta, ninguém mais consegue controlar.




A UFSC e os desafios dos trabalhadores


Fui até a reitoria ontem, acompanhar a reunião do Conselho que discutiria os rumos da administração da universidade após a trágica morte do reitor Luis Carlos Cancellier. Levei minha câmera. Imaginava encontrar o saguão lotado de gente. Professores, alunos e técnico-administrativos, ansiosos por acompanhar o debate e dar seu pitaco, como sempre foi. Os destinos da UFSC suscitando discussões e massivas aglomerações. Surpreendi-me. Pouquíssimas pessoas acorreram e ali estavam entre perplexas e apáticas. Apenas um pequeno grupo de trabalhadores - no qual me incluo - preocupava-se em participar do debate, distribuindo um panfleto com sua posição sobre o tema aos conselheiros e aos presentes.

Os demais seguiam sua vida nos espaços da UFSC, aparentemente indiferentes ao que se desenrolava na Sala dos Conselhos. A instituição tocando sua vida, intocável e inerte. Praticamente nenhuma paixão, como as que outrora sacudiam a universidade, no debate de qualquer coisa que tivesse a ver com sua realidade. 

Entrei na UFSC em 1994, indo direto para a Agência de Comunicação. Lá, a vida pulsava. Havia o Jornal Universitário, que discutia a realidade local e nacional, havia trabalhadores que se envolviam com a UFSC até o pescoço. Tinha amor, tinha paixão, tinha ódio, tinha compromisso, tinha alegria e tinha união. Trabalhava-se além da conta e ao final do expediente ainda ficava-se na UFSC para um churrasquinho, uma cerveja de fim de dia, uma confraternização que era sempre regada ao debate sobre a política da instituição. 

Nos movimentos de trabalhadores também iluminava a paixão e o compromisso. Reuniões, greves, debates, festas, muita discussão, divergências, lutas. E, em tudo, o amor pela UFSC, o compromisso com o serviço público, o cuidado com o trabalho, com o atendimento das pessoas. Vêm à memória pessoas como Helena Dalri, Moacir Loth, Valcionir Correa, o Assis, o Silva, o Maneca, a Angela Dalri, entre tantos, gente que entregou sangue e suor pela UFSC. Para quem a universidade era casa.  Lembro-me da alegria que dava na gente, caminhando pelo campus, com suas flores, seus canteiros bem cuidados, seus projetos de música na Concha, a estudantada pelos caminhos, no Centro de Convivência, nos CAs, debatendo e discutindo o país.

As grandes batalhas contra os projetos de privatização de FHC. Anos e anos de resistência, passados na luta renhida, com movimentos, ocupações e batalhas campais na rua. Trabalhadores, estudantes, juntos, na defesa da universidade pública. 

Ontem, era essa universidade que eu queria ver. Mas, é claro que ela não existe mais. Praticamente toda aquela geração que fazia a luta nos anos 90 e 2000 já está fora da UFSC. Muitos se aposentaram justamente por conta dessa mudança na atmosfera da vida universitária. A universidade acomodou-se aos tempos de “vacas gordas” do governo petista. Os salários melhoraram, as lutas foram ficando pontuais, no geral por arrumação no plano de cargos. Depois, por conta de algumas gestões, principalmente a de Roselane/Lúcia passou de espaço de acomodação a um ambiente doentio, hostil, feio. Quem não se lembra da chuva de processos contra os trabalhadores que levou pessoas ao adoecimento e à exclusão? 

Os novos trabalhadores que chegaram já no século XXI encontraram uma universidade diferente. Muitos deles também sequer vinham para a UFSC por conta daquele desejo fervoroso de servir ao público, de atuar na área da educação. Era só mais um concurso, e deparando-se com o empobrecimento salarial, já partiam para outro e outro. E os que ficaram vivenciaram momentos de profunda decepção, o que os levou ao medo ou a indiferença. Um exemplo disso foi a greve das 30 horas, movimento histórico dos trabalhadores, no qual as portas da UFSC ficaram abertas ao público de forma ininterrupta. Um movimento que levantou de novo a estima dos trabalhadores, que envolveu em paixão, em amor, aqueles sentimentos que marcaram a geração passada. Uma greve “diferente”, de ação, de atuação, de trabalho contínuo, que mobilizou toda a nova geração. Mas, a forma como terminou, derrotada pelo próprio sindicato da categoria e punida exemplarmente pela reitora Roselane, sufocou e interrompeu o processo de recuperação do compromisso pela UFSC. Foi um golpe e tanto.

Desde aí, com cortes de salário, perseguições e até a tentativa de exoneração de um de seus líderes, o movimento arrefeceu. Cada um foi cuidar da vida, cortado das asas. Muita gente adoeceu, outros tantos seguem doentes, se arrastando pelos corredores. Muitos sofreram processos e tiveram a vida interrompida. Um estado policialesco foi sendo criado dentro da universidade, o que marcou de maneira profunda os trabalhadores. 

A nova administração, com Luis Carlos Cancellier, tinha esse desafio. Devolver o velho quadro de alegria e de comprometimento que a UFSC sempre suscitou nos trabalhadores. E ele começou mal, já que o processo de exoneração do trabalhador Daniel Dambrowski, fruto da greve das 30 horas, durante a gestão de Roselane/Lúcia, seguiu seu curso, deixando os trabalhadores com a orelha em pé. Foi preciso muita batalha para reverter a situação. Assim, pressionado pelo que ainda restava do espírito de luta dos técnico-administrativos, Cancellier acabou encontrando um caminho, e isso era o que o diferenciava. A incansável busca por soluções negociadas, passando ao largo dos conflitos. Daniel não foi exonerado e essa pequena vitória poderia ser a alavanca para a retomada da participação dos trabalhadores na vida da universidade. 

Esse é o cenário da UFSC hoje. O reitor, símbolo da conciliação, que iniciava uma prática pouco conhecida na UFSC, de presença cotidiana no campus e de portas abertas, está morto. Os trabalhadores seguem desarmados diante da realidade. Sem um sindicato de luta, sem grupos de oposição atuantes, sem ação política interna. Parece que a UFSC é só um espaço aonde se vem cumprir as obrigações, aonde se vende a força de trabalho. Não se vê aquela entrega de outras épocas. “Não vale a pena”, dizem alguns. Temos uma universidade burocrática e ainda sobrevive a atmosfera do medo. Agora, renovado, por conta de nova caça às bruxas, desta vez externa. 

Assim que não deveria ser surpreendente o esvaziamento do dia de ontem. Nem mesmo os apoiadores da administração compareceram em massa, para apoiar a vice-reitora Alacoque. Apenas um que outro. Apareceram poucos estudantes e o pequeno grupo de técnicos que, apesar de não ter votado na proposta Cancellier/Alacoque foi manifestar seu posicionamento de que o Conselho Universitário deveria referendar a sequência da gestão, com Alacoque como reitora. 

A melancólica tarde da UFSC serviu pelo menos para essa reflexão. E a certeza de que há um longo caminho de reconstrução para ser feito junto a nossa categoria. O desmonte da universidade e dos serviços públicos já está em andamento, desde a aprovação do congelamento dos investimentos públicos por 20 anos. Há uma guerra declarada contra os trabalhadores, para usar uma expressão do professor Nildo Ouriques. Novos ataques virão, bem logo. E, se foram travados nesse campo de apatia e desamor, a derrota é certa.

Nós, os trabalhadores, temos um compromisso: recuperar a beleza que já vicejou nessa universidade. Recuperar a paixão, o amor pela coisa pública, o compromisso, a alegria de construir uma casa de saber. Sim, não é a universidade sonhada, nem a necessária. Mas essa universidade, para se fazer, precisa da nossa ação. Eu, que sou velha, e vivi momentos de profunda beleza nesse campus, não esmoreci. Penso que os jovens também não devem ceder ao sistemático assédio e à proposta de destruição que está à porta. Ninguém vai salvar a UFSC. Somos nós, os trabalhadores, aliados aos estudantes comprometidos com a universidade pública, que podemos insuflar vida e luta nesse campus. É tempo...

Ontem, conversando com o Leandro, da segurança da UFSC, ele contava que era prática comum do reitor aparecer lá no setor, tarde da noite, e acompanhar a ronda para, segundo ele, “ver como estavam as festinhas dos estudantes, se estava tudo bem”. Cancellier tinha lá os seus problemas, nem era um cara de esquerda. Mas, uma coisa não podemos negar. Ele amava a UFSC, com esse amor como o do Assis, da Helena, do Moacir, do Silva e de tantos outros que também cuidaram da UFSC como se fosse a sua casa. 

Esse amor é o que precisa voltar a existir em nós, trabalhadores. Porque a UFSC não é só um local de trabalho. Ela é o espaço da construção de uma nova sociedade. E cabe a nós erguer esse edifício ainda inconcluso. Não se trata de reproduzir a lógica liberal de “vestir a camisa da empresa”. A universidade não é uma empresa. Há mais coisas em jogo aqui do que apenas a venda da força de trabalho. Ela é campo fértil de disputa de ideias e concepções de mundo.

A decisão do Conselho Universitário foi a de referendar Alacoque para que termine o mandato. Foi a melhor decisão. Nós, que somos oposição, seguiremos atuando, de olho e em luta, não só com as coisas da UFSC, mas com as coisas do Brasil. Afinal, a história nos ensina. Só a luta muda a vida. 



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Che: um homem movido pelo amor



Sempre que se fala em Che Guevara a primeira coisa que vem a mente é a imagem do soldado, do revolucionário. Essa era uma das facetas do Che. Mas não a única. Desde bem garoto ele inventou de andar pela América Latina, gostava de conhecer as gentes e, com elas, estabelecia vínculos de amor. Formou-se em medicina e ainda estudante voltou a percorrer os caminhos da América do Sul. Seu coração de jovem médico era apaixonado por essa América profunda, pelos trabalhadores, pelos empobrecidos.  Ele não queria que a realidade fosse assim, tão dura, com os trabalhadores.  E foi esse amor pela sua gente latino-americana que o levou a ser um soldado da revolução cubana. Com seus companheiros cubanos ele empunhou o fuzil para derrubar uma ditadura, mas também cuidou dos caídos, dos doentes, dos feridos. Médico e soldado, coração e razão, sempre andando junto. 

Quando a revolução foi vitoriosa ele acabou sendo Ministro da Indústria e Comércio. Mas, seu trabalho nunca foi só de gabinete. Ele andava pela ilha, vendo as coisas com os próprios olhos, trabalhando junto com os trabalhadores no corte da cana, no carregamento dos grãos. Vivia como pensava. Ele acreditava que um homem e uma mulher revolucionários precisavam  ser perfeitos, éticos, pautados pelo bem comum. Ele dizia: “temos de ser o melhor marido, o melhor filho, o melhor pai, o melhor estudante, o melhor trabalhador, o melhor tudo. Temos de ser perfeitos, para ser exemplo. Tudo aquilo que formulamos como moral para o outro, temos de ser”.  A palavra para ele não era coisa vã. Era a escritura de uma ação concreta na vida. 

Tanto que não conseguiu aquietar-se num cargo de ministro da recém liberta nação cubana. Aquela gente sofrida da América que ele conhecera nas suas andanças continuava amargando dores, misérias e exploração. Então, para ele não podia haver acomodação na vitória. Seu desejo era voltar e iniciar uma revolução na parte sul do continente. Mas, naqueles dias, outros povos clamavam por libertação. Eram as gentes do continente africano que começavam suas lutas de independência das colônias europeias e do racismo fomentado por elas. Che não pensou duas vezes. Largou a pasta de ministro e foi se fazer soldado de novo. Ele era movido por profundos sentimentos de amor. “Enquanto houver um irmão injustiçado, somos companheiros”, era seu lema.  Como poderia descansar se outros companheiros e companheiras estavam em luta. E lá se foi para o Congo e Angola, batalhando contra o apartheid e o colonialismo. 

Na volta da África, de novo, seu coração decidiu por fazer valer a ética que o caracterizava: o amor pelo outro, pelo caído, pela vítima do sistema capitalista, pelo que se levantava em rebelião. E, mais uma vez recusou cargos ou honrarias. Não haveria de descansar enquanto toda a América Latina não avançasse para um tempo de justiça. Foi quando viajou para a Bolívia, onde iria combater outra ditadura. Lá, por conta das diferentes condições históricas e erros de estratégia, foi capturado. Um dia depois, assassinado friamente por um soldado boliviano, mas a mando de agentes estadunidenses que foram chamados para documentar a morte do revolucionário. Não contentes em executar o então prisioneiro, desarmado e indefeso, os agentes lhe cortaram as mãos. Um toque de sadismo. Era preciso tripudiar do homem que ousara sair do comodismo de uma boa vida de médico burguês, e abraçara a causa dos trabalhadores, dos oprimidos. 

A última imagem que temos do Che é a de um homem morto, deitado numa mesa fria, com os olhos bem abertos, mirando o infinito. Nem na morte os seus carrascos conseguiram apagar a luz que emanava do seu ser. 

Obedecendo aos preceitos éticos que pregava, el Che foi o homem perfeito. Amou as mulheres, amou seus filhos, amou Cuba, amou o conhecimento, amou os cubanos, amou os africanos, amou os latino-americanos, e por conta desse amor incondicional entregou sua vida.  Ele curou vidas, produziu teoria, dirigiu uma revolução, comandou um ministério, morreu por seus ideais.

Esse é seu maior legado. Viveu o tempo todo, na prática, aquilo que apontava como teoria, como moral e como ética. Morreu de pé, olhando o inimigo no olho. Seu exemplo de ser humano é sua maior herança.

E hoje, quando lembramos os 50 anos do seu assassinato, é isso que nos conforta. Che Guevara ainda é um caminho. 


domingo, 8 de outubro de 2017

Perfecto Romero, o fotógrafo da revolução cubana


Ernesto Guevara, médico argentino e guerrilheiro cubano, é considerado o homem mais importante do século XX. Sua capacidade de amor pela América Latina, seu comprometimento com a luta dos povos oprimidos o levou a lutar na Guatemala, em Cuba, no Congo, em Angola e na Bolívia. À libertação das gentes ele dedicou sua vida. Capturado na Bolívia em 8 de outubro, foi executado na manhã do dia 9, entrando para a história. Sua morte, ao contrário do que pensavam seus algozes, não fez desaparecer suas ideias. Elas voaram e seguem pairando por todos os lugares onde há povo em luta contra a opressão. 

Nesses dias em que lembramos dos 50 anos de sua semeadura apresentamos uma pessoa que foi parte da vida de Ernesto, durante a revolução e no tempo em que ele atuou como ministro na Cuba já libertada: o fotógrafo Perfecto Romero. Ele registrou um número expressivo de imagens do revolucionário cubano, já que partilhou com ele o cotidiano da luta.

Um número muito grande das fotos que hoje conhecemos sobre a revolução e sobre Che são obra de Perfecto. Ele ainda vive em Havana e lembra com respeito o homem que ajudou Fidel e Raul a garantir a liberdade para e com o povo cubano. 

Perfecto foi encontrado pela fotógrafa argentina Laura Lavergne nas ruas de Havana. Ela fazia registros em Cuba quando foi abordada por um senhor, querendo saber o que ela buscava para registrar. Ele conversou com ela sobre fotografia, disse que era fotógrafo também e a convidou para ir até sua casa ver seu trabalho. Deu o telefone, o endereço, como é comum aos cubanos, sempre hospitaleiros. Laura não sabia quem ele era, nem do incrível arquivo que ele possuía. Dias depois ela resolveu ir até a casa do fotógrafo, curiosa que sempre foi com as coisas de Cuba. Seu pai, Néstor Lavergne, havia sido o único argentino que trabalhara com Ernesto Guevara no Ministério da Indústria e Comércio, e Cuba sempre fora sua segunda pátria. Estava ali justamente para isso, levantando imagens e informações sobre o tempo em que seu pai passara ali e o trabalho que fizera. Vai fazer um video documentário sobre esse período da vida de Néstor.

Chegando à casa do homem que encontrara na rua, ele abriu seus arquivos para que ela visse o trabalho feito ao longo de décadas. Pois, ali, na mesa da cozinha, foram estendidas praticamente todas as fotos conhecidas de Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Raul Castro e outros. Perfecto Romero tinha sido o fotógrafo que acompanhara as lutas, ele mesmo um combatente, e, depois, a caminhada dos principais líderes da revolução. 

Foi um encontro emocionante, com a memória da revolução, com Che e com Perfecto Romero. 

Ele contou que nasceu em Cabaiguán, no dia 25 de janeiro de 1936 e ali começou sua carreira como fotógrafo em 1955. Filho de uma família de camponeses, bastante numerosa, ele também trabalhou vendendo pão e lustrando sapatos. Ainda bem jovem, durante a ditadura de Batista, começou a participar do Movimento 26 de julho, liderado por Fidel Castro. Quando veio a revolução ele foi para as montanhas do Escambray para atuar como combatente e como correspondente de guerra. Era um soldado da Coluna 8 Ciro Redondo, então comandada por Ernesto Guevara.  

Assim, foi na lida cotidiana da guerra que ele conheceu Che e participou como uma testemunha privilegiada das campanhas de Las Villas e da tomada de Santa Clara. Foi Che Guevara quem lhe pediu pessoalmente para que fosse o fotógrafo oficial dos combates finais que levaram ao triunfo da revolução. 

Naqueles dias ele era um jovem de 20 anos e com Che aprendeu muito mais do que guerrear e fotografar. Ele foi um dos fundadores e o primeiro fotógrafo da revista Verde Olivo, criada em 1959, por iniciativa de Che, Raul e Camilo.

A partir daí foi registrando a vida do país que se erguia com as próprias pernas, tornando-se hoje o guardião de imagens históricas inesquecíveis. Hoje, com 81 anos de idade, segue trabalhando, sendo parte da equipe da revista Palante. Na sua casa, mantém viva a memória da revolução, uma memória colhida por suas próprias retinas, plasmada na fotografia.

O encontro com Perfecto fez com que Laura ampliasse seu foco para além do vídeo que está produzindo sobre seu pai, Néstor Lavergne. Agora ela também está trabalhando no projeto de um livro-ensaio sobre a obra desse incrível fotógrafo cubano, Perfecto Romero, que também será constituído por entrevistas gravadas. O vídeo que apresentamos é uma parte do trabalho e da pesquisa que vem sendo feita junto com Vera Bandeira (fotógrafa brasileira ) e com assessoria do também fotógrafo Pepe Pereira dos Santos. 

O IELA pode participar da finalização do trabalho, com a jornalista Elaine Tavares e o fotógrafo Rubens Lopes ajudando na edição. 

Aqui, disponibilizamos parte desse trabalho de Laura Lavergne  que é também uma homenagem a Che Guevara.

Perfecto Romero tornou-se o fotógrafo que é por conta do incentivo e da confiança que Che depositou nele naqueles duros tempos de guerra. Hoje, passado tanto tempo daqueles dias de profunda alegria na grande revolução que mudou a cara do mundo, o velho fotógrafo, através de sua própria história, mostra mais uma face desse homem incrível que foi Ernesto de la Serna, el Che. 

Com Perfecto, el Che. Perfeito!